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Nosso destaque da semana é João César de Melo. Artista Plástico autodidata, graduado Arquiteto Urbanista pela UFES em 2006, vencedor do Prêmio IAB de Arquitetura Capixaba nos anos de 2004, 2005, 2007 e 2008. “John”, como também é conhecido, nasceu em Belo Horizonte - MG, mas se mudou para Vila Velha aos 3 anos de idade. Hoje, com 37 anos, mora em Santos –SP onde mantém ateliê de desenho e pintura.
- Você é artista, arquiteto ou poeta?
Arquiteto... Tanto, que acredito que a maior poesia que uma sociedade pode produzir são suas cidades, quando estas funcionam como elemento agregador de valores e ambiente de interação sócio-cultural.
- O curso de arquitetura teve influência na formação da sua personalidade?
Totalmente. O ambiente acadêmico, em especial o do estudo da arquitetura, me fez entender as relações que constituem a cidade, que é o resultado de uma sociedade. Aprendi que, antes de assumirmos a função de projetar, temos que polir nosso caráter, entender nossa responsabilidade enquanto cidadão. O arquiteto, por sua formação acadêmica, tem a obrigação de ser um exemplo de cidadão.
- Qual é a sua atitude diária de contribuição para com a sociedade?
Tento ser um cidadão responsável, consciente de meus deveres e direitos. Mas tenho orgulho de duas coisas em especial: tento fazer tudo que preciso na cidade utilizando-me de bicicleta. Afirmo que, além de fácil, é muito prazeroso. Em meus percursos cotidianos, quase sempre chego aos meus destinos mais rápido do que se tivesse ido de carro ou de ônibus e ainda tenho uma outra perspectiva da cidade, descobrindo-a em novas paisagens e atrações que o uso massivo e irracional do carro não nos possibilita. Outra decisão da qual me orgulho é a de não vulgarizar meu diploma de arquiteto formado numa escola pública. Para mim arquitetura é muito mais do que uma profissão que me possibilitaria ganhar um dinheirinho projetando isso ou aquilo. Arquitetura é postura, é olhar, é voz. Crendo nisso, me esquivo do mercado procurando me expor a trabalhos que realmente vão agregar algum valor à minha vida, á vida da cidade ou, pelo menos, que sirva como um exercício de uma cidade melhor.
- Foram 12 anos como acadêmico.. muitos encontros "EREAS, ENEAS, ELEAS". Quantos foram e qual das cidades mais te marcou?
Em primeiro lugar tenho que explicar que foi uma decisão minha ficar tantos anos na Universidade. Tomei esta decisão no meu 3° ano de faculdade, pois não me sentia maduro o suficiente para sair por aí com um diploma debaixo do braço. Nas matérias importantes do curso, as de projeto, eu era excelente aluno, mas sentia que eu precisava entender melhor como funcionava a cidade em torno ou em função da arquitetura e, também, me sentir uma pessoa melhor, mais responsável, comprometida. Estender o curso para 12 anos foi a melhor decisão de minha vida.
Quanto a sua pergunta, participei de 30 Encontros de Estudantes de Arquitetura em diversas cidades do Brasil e Argentina, fora outras viagens, também através da faculdade, para bienais de arte, de arquitetura e para outros eventos relacionados ao curso. As cidades que mais me marcaram foram as próprias Cidades EREA's, ENEA's e ELEA's construídas para abrigar estes Encontros de Estudantes. Dentro de seus tapumes é que eu vi realmente, que é possível se construir uma sociedade melhor, mais horizontal, sem as mazelas, os pecados e a violência que nos massacram cotidianamente.
- Sua monografia foi um manifesto sobre Vila Velha? Por que escolheu esse tema?
Fui criado em Vila Velha. Minha infância e juventude foram emolduradas por suas belezas. Mas, estudando arquitetura, percebi o quanto a geografia e a história de Vila Velha, suas maiores belezas, estão sendo usadas para os interesses mais baixos, mesquinhos. Entendendo o quanto estão condenando Vila Velha a se tornar um enorme gueto de 400 mil habitantes, resolvi fazer de meu projeto de graduação um ensaio de como poderíamos ter planejado a cidade objetivando um futuro melhor, muito melhor do que o que temos hoje.
- Hoje você mora em Santos. Sente falta de Vila Velha, da avenida Gil Vellozo?
Sempre digo e repito uma frase que me dói muito: Vila Velha é a melhor cidade do mundo, do calçadão da Praia da Costa para o Leste. Ou seja: Vila Velha só vale mesmo da areia da praia em direção ao horizonte, que é o que ainda é intocado. Como cidade, cidade edificada, é uma tragédia urbana, um culto á irresponsabilidade, ao desrespeito, á incompetência dos órgãos públicos e a ganância privada. Sinceramente, sinto falta apenas da areia da Praia da Costa, do seu mar esverdeado, das suas meninas, do picolé Ajjelso, dos navios e das pedras pontilhando o horizonte... e também, claro, do Convento da Penha, do Morro do Moreno... mas, da cidade em si, não há do que se ter saudade.
- Você disse que a natureza daqui te agrada. Existe arquitetura em nossa cidade que te agrade?
Há poucos exemplos de boa arquitetura em Vila Velha. Entre os edifícios multifamiliares construídos nos últimos 10 anos não há nada do que possamos ter orgulho. São palafitas que custam centenas de milhares de reais apenas por causa de seus adornos e da proximidade com o mar. É de doer os olhos! Comparo-os a mulheres que se sentem bonitas e inteligentes apenas pelas jóias que ostentam penduradas no pescoço. De boa arquitetura, temos apenas uma ou outra casa espalhada pela cidade, e um ou outro resquício de uma tentativa de modernismo e só. No geral, a arquitetura de Vila Velha, representada pelos novos predinhos da orla da Praia da Costa e de Itaparica, é cafona, brega, barroca, dispendiosa... incompatível com a elegância e a beleza de sua geografia.
- "2555 CARACTERES Incluindo Espaços" é o seu último livro publicado. Como surgiu essa idéia de publicar suas criticas?
Este livro foi um delicioso acaso. Recém formado, me vi num vácuo intelectual, pois havia saído do ambiente que mais me proporcionava a troca de idéias e me motivava a produzir. Então passei a escrever sobre os temas da semana (tanto sobre arquitetura quando sobre outros assuntos) e a enviar para a Coluna Opinião do Jornal A Gazeta. Tendo alguns artigos publicados, me motivava cada dia mais até que, no começo de 2008, percebi que já havia um grande numero de artigos escritos, o que me levou a ter a idéia de publicá-los. Este livro, além de um valioso exercício de crítica urbana, foi também um exercício de arquitetura, pois eu tinha que formatar uma idéia dentro de um espaço delimitado dentro do jornal.
- Você tem algum ídolo?
Tenho vários... Mas, ultimamente, me emociona muito a palavra do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, quem comentou gentilmente meu livro. Paulo me inspira por conseguir sempre fazer de sua obra veiculo para a palavra, elevando o papel do arquiteto na sociedade.
- Você viu o projeto do Paulo Mendes da Rocha para o Water Front da Baía de Vitória. Gostou?
Vi, gostei sim do projeto. Já conversei com o próprio Paulo Mendes da Rocha a respeito dele e de sua importância para a região. O problema, que é o de sempre, é se esse projeto vai sair da prancheta. Pegue todos os projetos e planos que foram desenvolvidos e levados á público nos últimos 15 anos e me aponte pelo menos um que saiu do papel. Não há. Sempre as demandas urbanas são usadas pelas gestões municipais e estaduais do Espírito Santo apenas para proporcionar fotos, manchetes e votos. Nada é executado. Nunca. Vila Velha indica muito bem a direção em que o Espírito Santo está indo.
- Música indicada por John:
Construção – Chico Buarque
Nossas observações:
Para saber mais sobre seu trabalho, visitar o blog sobre seu ambiente e processo criativo - www.demeloarte.blogspot.com
Contatos para a aquisição do livro no e-mail
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Grande John.....entrevistado “hi-tech”, via MSN. Foi difícil coincidir nossos horários para a conversa, mas valeu a espera. Obrigado pela atenção e sucesso!
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