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A notícia deixou Vila Velha inteira abismada. Como é que é? Mestre Tomazinho enfartado? Não dá pra acreditar. Um sujeito forte daqueles, dono de uma saúde de ferro, não enfarta assim, sem motivo, de uma hora para a outra. Aí tem coisa! De fato tinha. Ao deixar a Santa Casa, recuperado, ninguém aborreceu muito o velho pescador com perguntas. A história já se espalhara.
Não sei o que é verdade verdadeira e o que foi posteriormente acrescentado. Sei que, de acordo com o registro cronológico traçado pela língua do povo, a causa do enfarte remonta ao distante ano de 1932, quando, na praia de Marataízes, Tomazinho e Dora se conheceram durante as férias escolares de julho, deram-se uns beijos e ensaiaram um início de namoro. Bobeira de adolescente. Os dois tinham 15 anos, idade em que só se leva a sério a falta de seriedade. Não duraria muito, mas um acontecimento dramático contribuiu para acelerar o fim do que, por natureza, já nascera fadado à brevidade. O pai de Dora, Seu Antônio Vivacqua, foi assassinado em Cachoeiro e ela teve que voltar para casa às pressas. No momento da despedida, talvez inspirado pelo clima fúnebre, o casalzinho trocou uma promessa solene: o primeiro a morrer deixaria para o outro seu bem mais precioso.
Depois do enterro, Dora foi embora com a mãe para o Rio de Janeiro, onde acabou ingressando na carreira artística, transformando-se em uma vedete lendária e polêmica. Tomazinho seguiu os passos do pai, virou pescador. Arranjou uma boa moça, casou-se e mudou para Vila Velha. Nunca mais viu a amada, embora às vezes tivesse notícias dela pelos jornais, ocasiões que aproveitava para tirar onda com os amigos ou ferroar a mulher, que fazia pouco caso:
– Lá vem você de novo com a história da venenosa. Larga de ser besta, homem, aquela víbora nem deve mais lembrar que passou pela sua vida!
Brincando, brincando, quem passou mesmo foi a própria vida. Em meados de 1967, depois de vários dias no mar, ao atracar a traineira na Praia do Ribeira, Tomazinho encontra um bilhete da mulher à sua espera: “Saí de casa. Não volto enquanto a cobra da Dora estiver lá.”
– O quê? A Dora lá em casa!?
Tomazinho esqueceu do bilhete, esqueceu de mulher, esqueceu de tudo, disparando para casa com o coração na mão. O filho mais velho aguardava na porta, com um porrete na mão e uma multidão em volta, querendo entrar para ver.
– Ela tá no seu quarto, pai, deitada na cama. Não tive coragem de tirar ela de lá.
– No meu quarto? Na minha cama? Ui, meu Deus! Filhão, cê achou ela bonita?
– Bonita eu achei sim. Bonita e grande.
– Claro que ela é grande, seu tonto! É a maior estrela do Brasil!
O filho ia replicar, mas não deu tempo. Tomazinho correu pro quarto. Viu o vulto coberto pelo lençol. “Tadinha, cansou de me esperar e dormiu!” Cuidando para não fazer barulho, tirou os sapatos e meteu-se debaixo do lençol disposto a tirar também o atraso de uma vida inteira. Trêmulo, abraçou o bolo de carne macia... e soltou um berro pavoroso!
O enfarte foi a consequência inevitável. Mestre Tomazinho não sabia, só soube depois, na Santa Casa, que sua ex-namoradinha havia morrido e deixado para ele seu bem mais precioso, a imensa jibóia com a qual se apresentava em seus shows, a cobra da Dora, Dora Vivacqua, mais conhecida pelo nome artístico de Luz del Fuego.
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