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Por volta de 78, 79, um dos meus passatempos favoritos era tardear aos domingos na varanda da casa de Siá Teresa Piquira, rebatendo com biscoitos de polvilho e café fresquinho, acabado de coar, as histórias que ela me contava. Histórias de uma Vila Velha antiga, bem diferente da metrópole quase sem alma de hoje.
Viúva de pescador, Siá Teresa aprendeu com o marido a doce arte do exagero. Então, devo avisar, não respondo pela veracidade integral dos causos que dela herdei, todos começando com a frase “isso me lembra...”, seguida por uma tossidinha seca que servia para limpar a garganta e prender de vez a atenção do ouvinte: “Isso me lembra (tosse-tosse) a história do bule de Dona Inocência, uma mulher muito vistosa que morava lá pras bandas da Glória. Era capixaba não. Veio de fora, Deus sabe de onde, metida numa companhia de circo-teatro. Uma noite, depois que apresentaram um dramalhão chamado Santa Venância, a Mártir da Fé, a lona do circo pegou fogo e a companhia desmanchou. Inocência ficou por aqui, empregada numa casa de família. Mas durou pouco o emprego. Naquela época, quando alguém morria, o velório era feito em casa mesmo, com o defunto na sala e muito café na cozinha. Pois Inocência cometeu o mais grave dos pecados: deixou faltar café no meio de um velório.
Posta no olho da rua, ficou vagando sem eira nem beira, uma mão na frente, outra atrás. Foi indo, a fome apertou e ela tirou a mão da frente, amasiando-se com Seu Gabito, um sapateiro italiano que também tinha veia de artista, manifestada uma vez por ano, na Semana Santa, quando interpretava Pôncio Pilatos na representação da morte de Cristo. A paixão pelo palco fortaleceu os sentimentos do casal, que consumou a união com o nascimento de um filho, o Nicolau, rapagão gracioso, com quem cheguei a trocar uns ensaios tímidos de flerte. O namorico só não foi adiante porque Nicolau e um amigo decidiram entrar para o Exército e foram para a Escola Militar de Realengo, no Rio de Janeiro. Vai dali a pouco, o quê que acontece? A Revolução de 30. E lá seguem os dois cadetes para a frente de batalha, deixando Dona Inocência desesperada, coração na mão.
Certa manhã, ela recebe um telegrama enviado pelo amigo do filho, dando conta que Nicolau tinha sido ferido, coisa leve, um ou dois tiros de raspão. Acontece que o telegrafista era uma besta e o telegrama chegou assim: “Nicolau atingido por 1 o 2 tiros VG internado hospital mas recuperando bem PT”. Nervosa, Dona Inocência entendeu 102 tiros. “Tão me enganando, meu filhinho morreu! Quem que leva 102 tiros e se recupera bem?” Cataprum! Caiu dura no chão. Mortinha. Mas o mais estranho ainda estava por vir. O povo ia chegando pro velório, chorava um pouco na sala, ao redor do caixão e seguia para a cozinha, se servir do bule de café em cima do fogão. Lá pelas tantas alguém reparou que o bule não esvaziava. Todos tomavam, tomavam, tomavam café e nada do bule esvaziar! Correram a contar para Seu Gabito, que quase teve um treco também: “Ma... ma é o café da Nocença, o derradero café da Nocença! Ela acabou de coá, poi leu o telegrama e morreu!”
Mal rematou o caso, Siá Teresa me espiou com uma pontinha de maldade no olhar e ofereceu: “Ceita mais um cafezinho?” Recusei, é claro.
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