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Onze anos atrás, quando comecei a escrever esta coluna, por diversas vezes usei como fonte para meus causos um livreto publicado nos anos 30 por um misterioso escritor canela-verde que se escondia atrás do pseudônimo Santozo Santuzo (até hoje não descobri sua verdadeira identidade). O sujeito era craque. Escarafunchou e botou no papel vários episódios da história de Vila Velha, quase todos muito engraçados. A última página ele reservou para uma fábula medieval trazida de Portugal para o Espírito Santo pelos primeiros colonizadores. É mais ou menos assim:
Antigamente, quando a Santa Madre Igreja mandava e desmandava no coração e na algibeira dos fiéis, havia um rei muito poderoso, muito temente a Deus, mas também muito amargurado com os grilhões impostos pelo casamento. Como arranjara uma rainha bonitona e prendada nas artes do amor, os primeiros anos de vida conjugal até que foram agradáveis. Só que, com o passar do tempo, ele foi ficando entediado com a obrigação de provar sempre do mesmo prato, embora vivesse cercado por um cardápio completo de marquesas, condessas e baronesas despudoradas, que de bom grado mergulhariam de cabeça no leito real. Apenas o temor de pecar e ser remetido para o fogo do inferno impedia o desgostoso rei de cair na farra. Um dia, não agüentando mais a secura, ele mandou um emissário procurar o arcebispo, rogando, em caráter excepcional, autorização divina para rosetar fora do sacrossanto recinto do lar. A resposta, claro, foi um sonoro não: “Conforme-se, Majestade. Em que pese vosso alto conceito junto a esta Diocese, a Igreja não tolera sortilégios dessa espécie!”
O rei considerou aquilo um desaforo. Onde já se viu? Depois de gastar rios de dinheiro erguendo a nova catedral, era esta a paga que recebia? “Vai ter troco, a se vai!” Mandou o emissário voltar e convidar o arcebispo para passar o inverno em seu castelo. Assim que ele chegou, perguntou-lhe qual seu prato favorito. “Galinha, majestade, eu adoro galinha.” O rei deu ordens, então, para que preparassem uma suculenta galinhada. Sua Eminência revirou os olhinhos de satisfação. Ao jantar, teve oportunidade de repetir o gesto, pois saboreou uma excelente canja de galinha. No dia seguinte, a peça de resistência foi galinha à cabidela, na ceia franguinhos tenros ao molho de hortelã e, durante as próximas semanas, enquanto a neve cobria as estradas e a Corte se regalava com finos e variados acepipes, a ele somente serviam galinha. Grelhada, assada, frita, recheada, a passarinho, inteira, aos pedaços, mas sempre... galinha! Não bastasse, deslocaram o galinheiro real para perto de sua janela, de modo que pudesse dormir e acordar ouvindo o bucólico reboliço das penosas.
Ao final de um mês, sem trocadilho, o pobre homem dava pena. Pálido, olheiras fundas, bem mais magro, tivera uma crise de nervos na véspera, quando, em sua homenagem, montaram um espetáculo chamado A Galinha dos Ovos de Ouro. Aí, não resistiu mais e foi ter com o rei: “Majestade, perdão pela ousadia. Está tudo muito bom, está tudo muito bem, mas realmente não dá mais para suportar. Há trinta dias eu só como galinha, ouço galinha, vejo galinha, cheiro à galinha, sonho com galinha. Não daria para variar um pouquinho só o cardápio?”
O rei sorriu, tirou do ombro do arcebispo uma travessa penugem de garnizé e lascou o aforismo que haveria de fazer história: “Conforme-se, Eminência. Rainha todo dia? Galinha todo dia!”
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