Qua, 01 de Março de 2006 15:35   
Antes de mais nada, uropígio é bumbum

(Crônica originalmente publicada em Dezembro de 2003)

Geralmente passa algum tempo até uma história cair na boca do povo e desaguar aqui na coluna, só que dessa vez aconteceu o contrário. Mal deuse o causo, logo vieram me contar. Ele começa na Praia da Costa, dá uma passadinha por Coqueiral de Itaparica, termina gloriosamente em Terra Vermelha e, por incrível que possa parecer, é rigorosamente verídico. Primeiro deixa eu apresentar os artistas.

De um lado, um tal de Bagaço, ladrãozinho pé-de-chinelo que, pelo menos até outubro passado, ganhava a vida assaltando no calçadão. De outro lado, nossa heroína Suzy. Na pia batismal era Eduardo, mas conforme foi crescendo e desmunhecando, acabou transformando-se em Suzy, Suzy Roma, cabeleireira bastante conhecida em Coqueiral, onde montou seu salão de beleza. Sempre alegre e festeira, é muito querida no bairro e princesinha da comunidade gay local. Outubro, entretanto, foi um mês negro para ela. Primeiro, amassaram seu Chevettinho comprado com tanta dificuldade. Depois, descobriu que todo o estoque de Henê do salão estava vencido, maior prejuízo! E como se não bastasse, o bofe que vinha namorando trocou-a por uma loira-falsa de Araçás. A seqüência de desgraças deixou Suzy tão deprimida, tão pra baixo, que três bonecas amigas a trouxeram para espairecer um pouco na Praia da Costa, tomar um sorvete, enfim, essas pequenas distrações gênero levanta-moral.

Muito bem. Terminada a última lambida, paga a conta, o grupo voltava da sorveteria para o Chevette, quando Bagaço e seu revólver apareceram anunciando o assalto. Assustadas, as três bonecas entregaram tudo, bolsas, relógios, bijuterias, balangandãs, tudo. Mas Suzy não. Num gesto tresloucado de desespero, ela desafiou: “Não vou entregar nadica, seu bandido! Se achar ruim, pode me matar. Minha vida não vale nada mesmo!” Surpreso com a inesperada reação, Bagaço deu uma hesitada e, no que marcou bobeira, Suzy segurou o cano do revólver e, dramática como só as bichas sabem ser, insistiu no desafio: “Vai, atira nesse coração dilacerado, nesse peito que o silicone há de comer!” Aí, sentiu a arma na mão, viu que não era de verdade e gritou para as aflitíssimas amigas: “Gentê! É de prástico! De brinquedo!” Pra que! A bicharada atacou Bagaço em bloco e o infeliz apanhou tanto que desmaiou e só acordou duas horas mais tarde. No salão de Suzy. Nu, amarrado, maquiado e depilado de cabo a rabo (inclusive).

Na cabeça uma peruca ruiva. Nas pernas, meias Lorex brilhosas, estilo Sônia Braga em Dancing Days. Na boca, para não gritar, um emplasto Sabiá. E o pior ainda estava por vir. Enfiado no portamalas, foi levado pelas “meninas” até o canto mais sórdido de Terra Vermelha e ali largado de bruços no chão, em frente ao botequim mais barra-pesada do lugar, covil da fina-flor da marginalia nativa. Dá até para imaginar sua cara de pavor quando os bandidões começaram a aparecer, atraídos pela buzina escandalosa do Chevette e deram com ele ali, pelado e indefeso. E ó, Bagaço nem sabia que Suzy batizara seu uropígio com um nomezinho meigo e sugestivo, escrito a batom na banda direita: XUXA PARK. Em anexo, um convite na banda esquerda: DIVIRTAM-SE!

Minha sugestão é convocar Suzy Roma e sua tropa de (rosa) choque para patrulhar a Praia da Costa. A segurança ia melhorar muuuito...

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