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No começo dos anos 70, dez moradores da cidade de Santa Teresa fizeram um bolão e ganharam 14 milhões de cruzeiros no teste 113 da Loteria Esportiva, o maior prêmio pago até então no mundo, equivalente hoje a mais ou menos 2,5 milhões de dólares. Infelizmente, poucos dos sortudos souberam administrar seu quinhão da fortuna. A maioria investiu errado ou saiu gastando à toa e deixou o tutu evaporar. De todos, porém, o mais desafortunado foi Téo Titica, que só viu a cor do dinheiro durante um único mísero dia.
Se você está pensando que um sujeito com apelido de Titica não devia ser grande coisa, acertou. Desde pirralho, Téo sempre fora um zero à esquerda. Jamais gostou de estudar, nunca trabalhou e, para desespero da mãe viúva, vivia perseguido por um batalhão de credores, gente a quem pedia empréstimos e não pagava. Ainda assim, o deus das improbabilidades o abençoou colocando Mônica em seu caminho. Mônica era uma das meninas mais certinhas da Praia da Costa e certinha em todos os sentidos: bonita, delicada, estudiosa e sensata. Quer dizer, sensata nem tanto, porque deixou-se apaixonar por Téo. Paixão de cegueta, fulminante, arrebatadora. De nada adiantou a família tentar desmanchar o namoro. A pressão só serviu para unir mais o casal. Mônica brigou com os pais, largou o cursinho, o sonho de fazer Direito e foi morar com o amado, às custas da sogra. Como a pensão da velha era minúscula e Téo queria distância do batente, ela arranjou um emprego e passou a sustentar a casa. Durante algum tempo aceitou aquilo resignada, mas aí engravidou e caiu na real, passando a exigir que o maridão desse um jeito na vida. Ele deu. Arrumou uma amante. A figura estudava farmácia em Vitória, morava numa república em Jucutuquara, mas era de Santa Teresa e Téo começou a ir para lá todo fim de semana. Com qual desculpa? Jogar futebol. “A pelada de Santa é sensacional, amoreco, imperdível.”
De tanto frequentar a cidade dos beija-flores, o desmiolado acabou se enturmando com os nativos e colecionando entre eles uma nova legião de credores. Um dia, pegou uma grana emprestada com o pai da amante e gastou tudo na farra, menos um troquinho usado para entrar num bolão da loteca. O bolão premiado! Quando soube que era um dos ganhadores, surtou. O curioso é que surtou para melhor. Como quem leva um choque repentino, repassou sua biografia, dando-se conta das besteiras que fizera, principalmente com a pobre Mônica, sempre tão dedicada. Então, tomou uma decisão, ou melhor, três: 1) sacar a dinheirama do banco antes que os credores descobrissem sua existência; 2) acabar com o caso extra-conjugal; 3) mudar-se com Mônica para um lugar bem longe.
Naquele tempo a violência urbana era mínima e o gerente da Caixa Econômica não estranhou (muito) Téo levar uma mala para retirar sua parte do prêmio. Da Caixa mesmo ele foi para Jucutuquara executar a segunda decisão. Surpresa! A república da amante tinha pegado fogo e ela, aos prantos, dava uma entrevista para a imprensa, no meio da multidão que acompanhava o trabalho dos bombeiros. Téo desvencilhou-se dela e correu para casa. Mônica dormia. Exausto de tantas emoções, ele se deitou e dormiu também.
Pela manhã, Mônica acordou e foi comprar pão. Na caixa da padaria, olhou por acaso para a pilha de jornais à venda. Quase teve um treco ao reconhecer, na foto que ilustrava a matéria de um incêndio, seu marido atracado com uma loira boazuda. Voltou imediatamente, furiosa. Téo estava tomando banho. Perto do armário, viu uma mala fechada. “Ora, ora, o safado já tá até de mala pronta pra me largar e fugir com a piranha! Ah, mas se ele pensa que deixarei barato, tá muito enganado!”
Quinze minutos depois, Téo saiu todo pimpão do banheiro. Mônica jogou um jornal na cara dele: “Então essa é a pelada imperdível de Santa Teresa?” Téo entendeu tudo num segundo. “Cadê a mala!? Cadê a mala!?” gritou. Mônica sorriu vingativa: “Já era, amoreco. Levei pro quintal, enxarquei de gasolina e taquei fogo!”
Téo Titica. Que desgraça de apelido, né?
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