Qui, 01 de Fevereiro de 2007 16:25   
Babelônia

Não pense o leitor que escrevi errado o título, que a intenção era escrever Babilônia e saiu Babelônia. Não. É Babelônia mesmo. De Babel, a torre bíblica. É que assistindo outro dia ao filme Babel, esse que vai concorrer ao Oscar, fiquei pensando que a enorme variedade de línguas faladas no mundo provoca de fato um monte de confusões e mal entendidos, dos mais cabeludos (tirem as crianças da frente do jornal), aos mais prosaicos, como, por exemplo, o significado diferente que brasileiros e italianos dão à palavra “prato”. Se você entrar num restaurante de Roma e pedir um prato ao garçom, ele o olhará espantadíssimo, porque em italiano prato quer dizer grama, capim e só não o chamará de burro, porque “burro” em italiano não tem nada a ver com asnos ou jumentos. É manteiga.

A lista de coisas do gênero é infindável, claro, mas selecionei algumas mais curiosas ou divertidas para o amigo leitor degustar. Aliás, “amigo” em eslovaco tem um significado quase oposto: desconhecido, forasteiro. Assim como na Islândia, onde “magria” significa gordura, obesidade e “ruym” algo muito doce, gostoso. Na Hungria, “vadia” é a freirinha noviça, “babaka” um tipo de paletó com capuz e “megera” um mingau apreciado pelas crianças. Em persa, língua oficial do Irã, o homem elogia a beleza de uma mulher dizendo “hodjacho” (a pronúncia é ôdiacho). Na Mongólia, se o rapaz quer chamar a moça para dançar diz: “Máteme”. Na Indonésia, ou melhor, na ilha de Java, que pertence à Indonésia, “karaio” é a forma carinhosa com que as famílias tratam seus vovôs, de onde se deduz que os netinhos javaneses devem viver repetindo “sua benção, karaio!” Genial é no Vietnam. Quando um vietnamita engasga, quem está por perto bate-lhe nas costas dizendo “Ca gue! Ca gue!” (“muita saúde!”). Melhor que essa, só voltando à Islândia. Se um islandês furioso quer xingar a mãe do outro, ele berra: “Skamulalula!” Pois é, “lula”, lá, é... é... é a mãe do outro.

As diferenças culturais se manifestam também em relação à linguagem gestual. O círculo feito com o polegar e o dedo indicador, que para nós é um gesto obsceno, para os americanos significa “ok”, tudo bem; no Japão, quer dizer dinheiro; na França, algo sem valor; na Alemanha, equivale a chamar alguém de idiota e na Tunísia é nada menos que uma ameaça de morte! Na Tailândia, os movimentos de sim e não feitos com a cabeça são invertidos. Na Romênia, a mão em figa tem conotação sexual, enquanto na Polônia e na Rússia serve como resposta de cunho negativo. No México, colocar as mãos nos quadris e encarar um mexicano dá a entender que você o está chamando para briga. Já o singelo gesto que a gente usa para pedir carona, na Ilha de Sardenha é um grosseiro convite para fazer sexo, tão grosseiro que leva o engraçadinho para a cadeia.

Dependendo do lugar, nomes próprios viram um grande problema. Caso da Grécia, onde as brasileiras chamadas Lili passariam por situações constrangedoras, uma vez que “lili” é a palavra usada pelos gregos para se referir pejorativamente ao órgão sexual feminino. Drama igual ocorre no Chile, só que lá a palavrinha tabu é “xuxa”. Daí, quando a nossa Xuxa andou fazendo shows em Santiago, para não escandalizar os chilenos, a televisão local anunciou Xuxa como “la cantante Suquissá!” Os noticiários da televisão portuguesa usaram um truque semelhante em 1990 (eu vi, morava em Lisboa na época), quando uma jovem imigrante búlgara foi assassinada num crime de repercussão nacional. Como o nome da coitada era Ykhi Shoshota, os locutores, corados de vergonha, pronunciavam Iqui Coscota. Mas não precisa ir longe. Trinta anos atrás, tivemos aqui mesmo no Brasil um episódio famoso e bastante parecido. Num golpe de sorte, a Polícia Federal prendeu no Rio de Janeiro um importante mafioso italiano chamado Dom Tomaso Bussetta e a imprensa tupiniquim (sob censura), mudou o sobrenome do homem para Buschetta, de forma a permitir a leitura pretensamente italianada “Busqueta”. Ainda assim, o Cid Moreira ficava todo encabulado ao dizer o nome do cara no Jornal Nacional.

Agora, para rematar a coluna e matar de enfarte os vergonhosos (eu avisei pra tirar as crianças da frente do jornal!), imagine um brasileiro, o Zézinho, chegando na Turquia. Se desembarcar desavisado, certamente achará que o país é o paraíso planetário das bichas, pois a cada “olá” que receber tomará um sustaço. Isso porque “olá” no idioma turco se escreve “mêrhaba” e se pronuncia “meinrába”. Já imaginou? Zézinho andando pelas ruas de Istambul e levando um susto atrás do outro, com a turcaiada sorrindo para ele e dizendo: “Meinrraba, Zézinho! Meinrraba, Zézinho!”

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