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Na maioria dos países, mas de modo especial no Brasil, quem se dedica ao exercício da política, costuma se dedicar também à canalhice. A culpa, no entanto, muitas vezes é dos homens de bem, que, por razões diversas, se recusam a participar do jogo eleitoral, entregando o poder aos canalhas. Como dizia Platão, “uma das punições para quem se recusa a participar da política é que acaba sendo governado por seus inferiores”. A prova está diante de nossos olhos. Qualquer varredor de rua tem mais dignidade que um Maluf, um Jader Barbalho, um Collor ou um Renan Calheiros, os dois últimos citados de propósito, pois ambos são de Alagoas, terra onde acontece boa parte do causo de hoje.
Maceió, 13 de setembro de 1957. A capital alagoana vive uma crise gravíssima, sem luz, sem água, quase sem gás, policiamento precário, escolas e hospitais fechando as portas. Segundo a oposição, o responsável pelo caos é o corrupto governador Muniz Falcão. Já o denunciaram e faltam apenas alguns minutos para o início da sessão da Assembléia Legislativa em que se vai votar o processo de impeachment. De repente, entram no recinto lotado alguns deputados da situação, trajando capas de chuva e empunhando metralhadoras. Sim, o leitor leu direito: deputados com metralhadoras! Sem proferir uma só palavra, eles passam a disparar a esmo, varrendo a tiros o salão de debates. Armados com pistolas Colt 45, os deputados da oposição revidam. Dura cinco minutos o selvagem espetáculo, que termina com sete mortos e um batalhão de feridos. E é aí, na contagem das baixas, que Vila Velha entra na história, representada na pessoa de Seu Meissá.
Quando ouvi o nome pela primeira vez, achei que tinha ouvido errado. Como é que alguém pode se chamar Meissá? Que mãe desnaturada batizaria o filho com nome tão escalafobético? Pois é, mãe nenhuma. Meissá, descobri, não era nome, era apelido. Que o portador detestava, mas aprendeu a suportar, até chegando a sentir, no final da vida, um certo orgulho em ser chamado assim. Achava prova de macheza, uma espécie de cicatriz de guerra. Pelo menos foi o que me deu a entender durante uma das várias corridas que fiz com ele, numa época em que pegava muito seu táxi. Com quem não conhecia, era caladão, até meio antipático, mas quando o passageiro “era de casa”, desandava a falar pelos cotovelos, contando e recontando o episódio de Maceió:
“O doutor conhece? É uma cidadona bonita, de frente pro mar, quenem que aqui. O povo é bão, alegre, recebe de braço aberto quem vem de fora. Mas mal governado que só vendo! Credita que os políticos de lá conseguem ser pior que os nossos? Racinha ruim que é uma praga! E ó que falo por experiência própria. Senti na carne a ruindade daquela gente. Foi em 57. Eu tinha casado de pouco, precisava de um dinheirinho certo no fim do mês. Aí fiz prova pra carteiro. Passei. Só que não tinha padrinho e minha nomeação saiu pro correio de Maceió. A patroa chiou, mas que jeito, né, tive que ir. Deixei ela pra trás na casa da mãe e fui. Naquele tempo, viajar era custoso. Demorei três dias pra chegar. Como desconhecia o lugar, não tinha condição de ficar entregando carta na rua. Então me botaram pra ajudar Dona Dorotéia, a gerente da agência postal que funcionava dentro da Assembléia Legislativa. Menos de uma semana que eu tava lá, estourou o frege!”
O frege foi o tiroteio de 13 de setembro. Apanhado no meio do fogo, Seu Meissá buscou proteção debaixo de uma mesa. Ele e Dona Dorotéia. Embolados os dois no mesmo sufoco. Nesse momento, como o mundo é um porco-espinho a rolar sobre si próprio, o impossível aconteceu: realizando uma fantástica proeza balística, um projetil calibre 45 trespassou o nariz de Dona Dorotéia e, ato contínuo, arrancou uma bola do saco de Seu Meissá!
“O pior não foi a dor da perda nem os pontos que o médico deu. Foi depois, quando voltei pra casa e tive que explicar pra patroa o que que o nariz da mulher tava fazendo em cima do meu saco!”
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O tal Muniz Falcão não escapou. Dois dias depois do tiroteio, cassaram seu mandato e o homem passou para a História do Brasil como nosso primeiro governador impinchado, honraria que mais tarde também coube, na presidência, ao seu conterrâneo Fernando Collor de Mello. Nem tudo está perdido nesse país! (fora a metade do saco de Seu Meissá, claro) .
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