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Bandido experiente raramente assalta sem planejamento, ao contrário do criminoso pé-de-chinelo, que faz o gênero oportunista. Ambos são perigosos, mas esse último tem cérebro de minhoca. Sai rua afora e assim que vislumbra uma chance ataca sem pensar nas conseqüências, muitas vezes entrando (perdão pelo trocadilho) numa roubada. Foi o que aconteceu com um certo Maguila, grandalhão feioso, estúpido e violento que aterrorizou Vila Velha nos anos 90, até ter a carreira criminosa interrompida por... bem, interrompida pelo causo de hoje.
Uma das maiores e mais bonitas residências da Praia da Costa era a mansão da família Coser. Erguida no topo de uma suave colina incrustada bem no coração do bairro, ela provocava admiração geral, tanto por suas dimensões como pela engenhosa combinação de sobriedade e opulência. Comprada pela Construtora Encol, que quebrou logo após a negociação, permaneceu longos anos em desuso, cercada por dois ou três esqueletos de arranha-céus, enquanto tramitava o processo de falência da empresa. A certa altura, porém, e pouco antes de ser demolida, teve seu interior reformado para sediar uma edição da Casa Cor, aquela badalada mostra de decoração que acontece todo ano em um lugar diferente da Grande Vitória.
Assim que o auê decorativo terminou, o cineasta capixaba Tião Fonseca conseguiu autorização para filmar no local uma cena do curta-metragem que estava realizando. Como a cena era de velório e velório de magnata, a produção providenciou um caixão suntuoso, castiçais dourados, coroas de flores e uns quinze figurantes vestidos como gente rica, especialmente as atrizes, adornadas com quilos de bijuterias que reluziam como jóias de verdade.
Noite complicada aquela. Maguila e dois comparsas iam passando, viram a movimentação, as luzes acesas, o brilho das bijuterias e decidiram atacar. Não pelo portão da frente. Eram três bestas, mas nem tanto. Deram a volta até a rua lateral, mal iluminada, pularam o muro, atravessaram o jardim e entraram na mansão pelos fundos.
No salão principal, o Freitas, ator que representava o defunto, mantinha-se deitado dentro do caixão. O personagem dele tinha morrido em um incêndio. Então, suas mãos e o rosto haviam sido cobertos com uma camada grossa de maquiagem que imitava razoavelmente bem as mãos e o rosto de alguém que morreu queimado. Tião Fonseca terminava de ajustar a posição dos figurantes e já ia dizer “ação”, quando o trio criminoso invadiu o salão empunhando suas armas.
- “É um assalto! Todo mundo quietinho e de mão pra cima, senão vai ter mais de um velório aqui!”
Quem já passou por situação semelhante sabe que o melhor a fazer é tentar controlar o pânico e obedecer à ordem recebida, ainda mais quando ela é dada por um bandido de tamanho descomunal como o Maguila. Diretor, equipe técnica e o elenco inteiro ergueram imediatamente as mãos. Só que quando eu digo o elenco inteiro, quero dizer inteiro mesmo.
Esquecido de sua condição de defunto, o Freitas também ergueu as mãos. Fez mais até. Levantou do caixão. Pra quê! Maguila levou um susto tão grande vendo de pé aquele morto de aparência medonha que teve um treco e caiu estatelado no chão! Pior que seus dois valentes comparsas fugiram aos berros e a turma do filme é quem teve que chamar a ambulância. E a polícia, lógico. Levado para um hospital, Maguila ficou dez dias internado na UTI, só saindo de lá direto para o cemitério. Causa mortis: aneurisma cerebral.
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