Qui, 01 de Maio de 2008 08:10   
O homem que calculava...

O título do causo de hoje é um tanto enganoso. Doutor Serafim nunca foi amante da matemática e os únicos números com os quais costumava lidar eram os de seu graúdo contracheque de desembargador aposentado, que lhe permitia morar na cobertura de um dos mais caros prédios da Praia da Costa. A questão é que ele azedava todas as reuniões do condomínio ao tomar a palavra com um veemente “sou contra!”, encaixando depois o verbo calcular, num sem-fim de calcula pra cá, calcula pra lá que enchia a paciência dos vizinhos, porém sem causar danos maiores que a evidente agressão à bela arte da oratória. Entretanto, a partir do dia em que foi eleito síndico, a situação piorou muito, derivando da teoria para a prática num festival de proibições absurdas e pseudo-moralistas.

Empregadas usando o elevador social? “Sou contra! Calcula se a moda pega?

Vira comunismo!” Piscina liberada à noite? “Sou contra sim e proibi!

Calcula o incentivo à anarquia, com todos esses rapazinhos e mocinhas indecentes de hoje!” Televisão na portaria? “Claro que sou contra, calcula a falta de segurança! Porteiro é pago pra vigiar, não pra assistir filminho de madrugada!” De implicância em implicância, o prédio ficou parecendo um internato cheio de regras, todas expressas em quadros pendurados no saguão de entrada e no corredor de cada andar. Somente num aspecto, o discurso intolerante de doutor Serafim mudou. Se antes ele era contrário a qualquer alteração na taxa de condomínio, mal assumiu o novo cargo, sua primeira providência foi impor um aumento: “Calcula se dá pra administrar com aquela mixaria!” Alguns moradores chiaram, mas acabaram enfiando a viola no saco e tocando a vida. Até porque, verdade seja dita, nem todas as novas regras eram ruins. Teve uma, por exemplo, que mereceu aplausos gerais ao disciplinar os horários de mudança e das entregas, restringindo-as ao período diurno: “A noite é sagrada, destinada ao repouso. De seis da tarde às oito da manhã, só gente sobe no elevador.

Nenhum móvel, nenhum eletrodoméstico, nada que não possa ser carregado nas mãos!”

Acontece que o homem propõe e Deus dispõe. Como afirmava o sofista Júlio de Almeida, moral é aquilo que sempre estamos a exigir dos outros, mesmo quando não a temos. Por ironia do destino, foi justamente a tal regra aplaudida que desmontou a sanha moralizadora de Doutor Serafim. Era uma sexta-feira, seis e meia da tarde. Ele não estava. Tinha ido à missa, parece. O caminhão de uma transportadora parou diante do prédio com uma encomenda vinda do exterior, da Holanda, uma caixa grande, do porte dessas usadas para embalar geladeira, embora mais estreita. O porteiro já ia avisar que não podiam descarregar por causa do horário, quando viu que a encomenda era para o próprio Doutor Serafim e que, apesar do tamanho, a caixa era leve. Decidiu então adotar uma solução intermediária: “Ponham na garagem, amanhã cedo dou um jeito de levar o troço pra cima”.

Quinze minutos depois que o caminhão foi embora, três carros entraram ao mesmo tempo na garagem, um deles conduzido por dona Rosinda do 601.

Cegueta emérita, péssima de volante, ela se atrapalhou na manobra para estacionar em sua vaga e partiu com tudo para cima da caixa, que não resistiu ao impacto e partiu de alto a baixo, espalhando garagem afora um milhão de bolinhas de isopor, enquanto uma linda garota de lingerie vermelha despencava da embalagem e caía dura no chão. Dona Rosinda desatou a berrar: “Matei a mulher que tava dentro da caixa! Matei a mulher!” Como assim uma mulher dentro da caixa!? Pois é, foi isso que todos se perguntaram ao acudir ao berreiro. O porteiro foi o primeiro a perceber o

engano: “Calma, dona Rosinda, não é gente não! É uma... uma boneca inflável!”

Boneca inflável é coisa do passado. Aquilo era um produto de última geração, feito com uma resina plástica que imitava com perfeição a pele humana, tinha cabelos naturais e até maquiagem! Doutor Serafim havia comprado em uma sex shop holandesa, via Internet. Ao voltar da missa, vermelhinho de vergonha, ele jurou de pé junto que a transportadora enganara de endereço. Calcula se alguém acreditou!

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