Seg, 01 de Maio de 2006 20:30   
Encontro marcado

(Publicado no Jornal da Praia da Costa - Maio/06)

Hoje não tem causo meu. Quero presentear o leitor com um texto irresistível, escrito por minha aluna e amiga Joyce Marin. Leia até o final e depois me diga se não sentiu um arrepio na última linha.

Cinco da tarde. Eu voltava para casa com o tempo fechado, nuvens escuras anunciando a iminência de um temporal. Quando entrei na avenida Beira Mar, vi uma multidão caminhando no meio da rua, vindo na minha direção. Lembrei ter lido nos jornais alguma coisa sobre a realização de uma passeata contra a violência, então diminui a velocidade e encostei à direita. A multidão foi se aproximando e logo eu conseguia ler seus cartazes com inscrições do tipo "Paz", "Não à violência" ou "Um ano da morte de Jean". Tive a sensação de que iriam me atropelar. Era muita gente, senti um pouco de medo.

Em questão de minutos, estava cercada por jovens, adultos, velhos, crianças, trabalhadores, estudantes, donas de casa, mulheres grávidas, pessoas de aparência humilde, pessoas ostentando símbolos de riqueza, enfim, representantes de todas as classes sociais, inclusive padres, policiais fardados e até alguns homens algemados, que me fizeram pensar quem teria permitido a participação de presos num evento daquela natureza. Para completar meu estranhamento, no meio da imensa e compacta multidão havia ainda muitos mendigos, bêbados, pivetes, prostitutas e travestis. Fiquei atônita. Nunca tinha imaginado uma passeata tão grande! Olhando para o lado, tive até a impressão de que parte dos manifestantes caminhava sobre as águas da Baía de Vitória, pois não seria possível caber tanta gente na estreita calçada da Beira-Mar. Eu devia estar delirando. Escurecia, não dava para enxergar bem.

Começou a chover e a temperatura também baixou repentinamente, provocando-me arrepios gelados. Agora, a multidão envolvia de tal forma meu carro que eu não conseguia mais ver os rostos dos que passavam pelas laterais. Eram apenas corpos sem cabeça esbarrando nas janelas. Alguns batiam as mãos na lataria. Deviam achar que eu estava atrapalhando a passeata. De novo, senti medo. Pensei em baixar o vidro, dizer alguma coisa, me desculpar, ou até mesmo sair do carro para mostrar meu apoio ao movimento, mas desisti, sentindo que era preferível não me expor.

Dos que vinham pela frente, eu conseguia ver os rostos tristes e sombrios. Seguiam adiante como se nada pudesse detê-los e com tamanha determinação que de repente tive a impressão de que escalavam meu carro e passavam por cima dele! Tentei ficar calma, buscar uma explicação lógica. Já havia anoitecido e com certeza o reflexo da luz na água da chuva estava me confundindo. Fui tentando me convencer disso, mas também fui me encolhendo cada vez mais no banco, apavorada, suando frio, com dores no estômago, cercada por aquela interminável correnteza humana.

Senti uma necessidade urgente de sair dali antes que a sensação de sufocamento ficasse insuportável. Suspirei fundo, murmurei uma prece, liguei o carro e comecei a buzinar. Para minha surpresa, ninguém reclamou, foram todos se afastando, cedendo espaço e não demorou muito para eu conseguir passar. Limpei o suor da testa. Sentia-me aliviada ao retomar o caminho de casa. Ao mesmo tempo, ainda estava impressionada. Muitas perguntas não saiam da minha cabeça. Como podia ter tanta gente naquela passeata? E em grupos tão diversificados? Quem organizara aquilo? Teria havido uma grande divulgação sem que eu tivesse sabido?

Finalmente cheguei em casa. Cumprimentei meus filhos que assistiam na sala ao noticiário da TV e ia seguir direto para o quarto quando a voz neutra do apresentador chamou minha atenção: "Não teve sucesso a passeata contra a violência marcada para hoje a tarde na avenida Beira-Mar. Devido ao mau tempo, ninguém compareceu." Não precisei ouvir mais nada. Um calafrio percorreu minha espinha, enquanto eu me dava conta do que havia de fato acontecido: as verdadeiras vítimas da violência não se preocuparam com o mau tempo.

 

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