Dom, 01 de Junho de 2008 21:57   
O pózinho mágico do Dr. Passarinho

Molière estava coberto de razão ao afirmar que muita gente morre de seus remédios e não de suas doenças. Foi o que ocorreu com quem teve a infelicidade de confiar no doutor Passarinho. É bem verdade que, fora as poucas famílias cujos recursos permitiam ir tratar dos dentes em Vitória, o povo pobre de Vila Velha não tinha outra opção senão procurar os serviços do doutor Passarinho, único “dentista” de Vila Velha no final do século 19. As aspas ficam por conta do exagero de chamar o homem de dentista. Afinal, ele nunca estudou em escola nenhuma e também nunca se soube direito quando, onde e com quem aprendeu o ofício. Dizer que aprendeu é outro exagero, pois o mais que fazia era desdentar a clientela usando uma arrepiante tabela de preços: extrações sem dor, pulverizando éter, custavam dez mil réis; a sangue frio, sem éter, três mil réis!

Mulherengo emérito, poupava a boca das moças bonitas, preparando nelas umas cavidades trepidantes que entupia de prata derretida de moedas.

Escrevi cavidades trepidantes porque seu “motorzinho” era o chamado trépano a pedal, aparelho que funcionava a pedaladas, mais ou menos como uma bicicleta. Devido à trepidação, os dentes sempre eram abertos mais do que o necessário.

Detalhe curioso é que doutor Passarinho não possuía consultório. Saía pelas ruas a anunciar seus serviços, levando nas costas uma cadeira de articulada de bambu, que montava na sala da casa dos interessados. Segundo os registros que chegaram até nós, parece que foi ele mesmo quem inventou a tal cadeira, o que não causa espanto, pois consta que era um sujeito engenhoso e cheio de expedientes. Até ganhava um dinheirinho extra vendendo escovas de dente de fabricação própria, feitas a partir das fibras da casca do coco verde. Eram escovas bastante rudimentares, mas relativamente eficientes e menos agressivas que as escovas então comercializadas, à base de pelo de porco, com cerdas de extremidades pontiagudas que feriam as gengivas.  Aliás, aí é que a porca torceu o rabo! Entusiasmado com a aceitação de suas es-côco-vas, doutor Passarinho resolveu partir para a fabricação de um dentifrício. Naqueles tempos, só havia disponível no mercado um caríssimo combinado de glicerina e giz moído, vendido em frascos de vidro (o primeiro creme dental em bisnaga do Brasil foi a Pasta Dontiphainos, lançada em 1894, por uma família de farmacêuticos alemães radicados em Curitiba). Depois de xeretar aqui e ali, nosso herói descobriu que no Nordeste usava-se gargarejar a juá, nome dado à casca moída do juazeiro. Como na região de São Mateus havia certa abundância de juazeiros, ele se despachou para lá. Voltou dois meses depois apregoando que virara representante local de um pozinho americano revolucionário que limpava os dentes e garantia bom hálito. Aparentemente ninguém estranhou um produto americano ser vendido embalado em palha de milho, mas apesar da boa saída inicial, as vendas logo encalharam porque não houve quem gostasse do sabor.

Doutor Passarinho tentou contornar o prejuízo espalhando que o produto servia também como um excelente tônico sexual masculino. Talvez por efeito psicológico, a coisa funcionou em alguns casos, a novidade correu mundo e a homarada de Vila Velha começou a fazer fila para comprar o famoso pozinho mágico. Quando apareceram as primeiras reclamações, doutor Passarinho improvisou para ganhar tempo: “O quê? Mái ocês tão gargarejando e cuspindo fora? Assim é pros dentes! Pra levantar o defunto é diferente, não basta gargarejar, tem que engolir com água antes da hora do vamos ver!” Até aí tudo bem. O problema é que os juazeiros do Espírito Santo são venenosos. Por conter saponina, a planta é tóxica e exige cuidados no consumo, sob pena de provocar vômito e diarréia. E foi exatamente isso que aconteceu. Todos que obedeceram as novas instruções desandaram a vomitar e cagar em cima das pobres das suas patroas!

Antes que fosse linchado, doutor Passarinho bateu asas e voou. Só uns dez anos mais tarde, Vila Velha voltou a ter dentista. Dessa vez, formado.

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