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Quem me conhece sabe que não gosto de dirigir. Nenhum motivo em especial, não gosto e pronto. Mas houve uma época emque andei pegando no volante, 25 anos atrás, quando ainda era um jovem tenente da Marinha, recém-chegado do Rio e morando “a bordo” da EAMES, a Escola de Aprendizes-Marinheiros, ali na Prainha. Decidido a tirar carteira, comprei um fusquinha de segunda mão para praticar. Minto. Era para aprender mesmo, não sabia sequer distinguir freio de acelerador.
Depois de ficar alguns dias solavancando pelas alamedas da EAMES, decidi abandonar a proteção naval e arriscar uma circulada pelas ruas próximas. Todavia, precavido como todo marinheiro de primeira viagem, achei que eu e a cidade correríamos menos riscos se a proeza fosse cometida bem tarde da noite. Então, numa madrugada deserta de domingo, com a disposição de Dom Pedro a caminho do Ipiranga, entrei no Fusquinha e fui proclamar minha independência.
No começo correu todo bem. Passei pelo portão sem atropelar o sentinela, avancei pela ruazinha do Colégio Godofredo Schnneider e aí, ao virar a esquina, levei um susto ao topar com um caminhão estacionado de um lado e um Chevette do outro. Entre os dois havia espaço suficiente para a passagem de um elefante, mas a adrenalina da aventura embaçou meus olhos e, na aflição do momento, temendo esbarrar no caminhão, desviei instintivamente para o lado do Chevette. Sem prática, desviei demais e arranquei o espelho retrovisor dele. Para minha sorte, Nossa Senhora dos Freios me socorreu e consegui parar logo adiante, sei lá como. Trêmulo, desci para conferir o estrago. O motorista do Chevette, que estava lá dentro namorando, desceu também, arrumando as calças, puto da vida. Só que não teve nem discussão. Não deixei. Fui logo me identificando como oficial da Marinha, dizendo que estava errado e que pagaria o prejuízo. Combinamos então que ele me apanharia na EAMES de manhã, para irmos juntos à uma oficina.
Aliviado com o desfecho pacífico, deixei um documento como garantia, entrei no fusca e fiz rapidinho o caminho de volta, sem nem perguntar o nome ou o endereço do rapaz. Agitado, demorei a pegar no sono. Pior. Mal fechei os olhos, fui acordado para ir acudir um outro tenente, que tirava o carro da garagem de casa quando um bandido armado sentou no banco do carona e mandou tocar para a Barra do Jucu. Ele obedeceu, mas no meio do caminho, temendo pela sua vida, jogou o carro em cima de um poste e atracou-se com o sujeito, conseguindo dominá-lo depois de muita pancadaria.
Em seguida, como a polícia demorava a aparecer, ligou para a Marinha, que despachou-me para o local com duas viaturas e vários homens armados. Encontrei ambos, assaltado e assaltante, cobertos de sangue e hematomas, nada grave, porém. Deixei um cabo vigiando o carro batido, mandei uma viatura retornar à EAMES com o bandido e, na outra, fui levar meu colega em casa, para se lavar e trocar de roupa.
Lá pelas nove horas, quando voltamos para a EAMES, o contramestre foi logo me avisando “tenente, um rapaz num Chevette estava esperando o senhor, mas de repente, entregou seu documento pra mim e sumiu, não entendi nada!” Nem eu entendi, pelo menos até agosto passado, quando, depois de um quarto de século sumido, ele reapareceu por acaso. Reconheci-o na platéia do Teatro Municipal de Vila Velha, ao lado da família, assistindo minha comédia No Tempo do Vinil.
Assim que o espetáculo terminou, fui procurá-lo e me apresentei como autor das duas peças, a que ele tinha acabado de assistir e a outra, de 25 anos atrás. Ao contrário do que o leitor possa imaginar, o reencontro foi tão cordial que acabamos numa pizzaria, às gargalhadas, ele contando a causa de sua repentina fuga: “Ué, a gente tava na ditadura militar, num tava? Eu lá te esperando, chega um camarada todo porrado, sangrando, cercado de marinheiro com metralhadora. Daí, pergunto prum sargento o que era aquilo e ele fala, ‘ah, é um negócio aí duma batida de carro com um tenente.’ Tá louco, meu, não pensei duas vezes, entrei no meu chevetinho e ó, casquei fora!” Claro que propus acertar o antigo prejuízo, mas o máximo que ele aceitou foi que eu pagasse a pizza. Não é à toa que dizem, no Brasil tudo termina em pizza!
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