Seg, 01 de Setembro de 2008 18:09   
O pastel maldito

Horácio nasceu em algum lugar de Minas. Aos vinte anos, veio para Vila Velha. Depois de penar um tempão vendendo pastéis de porta em porta, conseguiu montar uma pequena pastelaria em Paul. Foi indo, o negócio encorpou e virou uma bela de uma padaria, deixando Horácio bem de vida, pronto para mudar de bairro, se quisesse. Mas ele gostava de Paul e de lá só saiu na hora de ir pro cemitério. Dizem que morreu de desgosto, aquele tipo de desgosto vagaroso que vai roendo aos poucos a graça de cada dia até a pessoa largar de vez o prazer de viver. Não duvido nada. Já era de se esperar, com a mulher e o filho que arrumou. Filho não, enteado. Horácio casou com a mãe de Jaime Caranguejo e teve que levar o pilantra junto, de contrapeso, num casamento que ninguém entendeu. Na época, andaram até falando que foi macumba, que Teresona amarrou o coitado num despacho de encruzilhada. De outra forma como explicar um senhor distinto daqueles se enrabichando por uma figurinha vulgar como a Teresona, a cujo passado suspeito se acrescentavam as nódoas da grossura e da burrice? Sem contar a adoção forçada do Jaime, parasita sem escrúpulos que cresceu posando de riquinho à custa do talão de cheques do padrasto.

Muito bem. Enterrado Horácio, mãe e filho caíram fora de Paul, alugando um apartamento na Praia da Costa. Um não, vários, porque viviam fugindo de cobradores, arrumando confusão com vizinhos, maltratando porteiros, dando calote nas taxas de  condomínio. Então, volta e meia mudavam de prédio, deixando para trás um rabo de encrencas, tantas que em poucos anos estavam endividados de tal maneira que Jaime Caranguejo, em vez de criar juízo e arrumar um trabalho, decidiu arriscar tudo numa única cartada, bolando um plano mirabolante. Começou convencendo Teresona a extrair os dentes. Todos. “Ficou louco, Jaiminho? Por que eu faria um troço desses?” “Pra enriquecer, mãe. Vamos contrabandear diamantes pra Portugal!” “E o que meus dentes têm a ver com isso?” “Levaremos os diamantes escondidos na sua boca! Contratei um protético que lhe fará duas dentaduras, uma normal e outra falsa, com os dentes ocos. Em cada um dos ocos, escondemos um diamante. Chegando em Portugal, passamos sem susto pela alfândega, a senhora põe a dentadura normal, tiramos os diamantes da outra, vendemos e voltamos cheios da grana! Mais tarde, com calma, levo a senhora pra fazer implante com o doutor Erasto.” Teresona hesitou um pouco, mas - avisei que era burra - acabou caindo na lábia do filho. Os dois venderam o carro, a padaria, a casa de Paul, os terreninhos herdados de Horácio e usaram o dinheiro para adquirir em Teófilo Otoni um lote de diamantes de primeiríssima qualidade, que esconderam na dentadura falsa, tapando os buracos com acrílico. Daí, foram pro Rio de Janeiro pegar o avião para Portugal. O único problema era que a fragilidade da dentadura falsa obrigava Teresona a viajar em jejum, sem mastigar nada. Aviso do protético: “Se mastigar, quebra tudo!”

Acontece que a viagem coincidiu com o apagão aéreo, aquela baita crise que paralisou os aeroportos brasileiros. No meio do pandemônio que virou o Galeão, a mala com a dentadura verdadeira foi embarcada, enquanto Jaime e Teresona mofaram o dia inteiro no saguão, ela azul de fome. No meio da noite, quando o avião enfim decolou, a fome de Teresona já tinha passado de azul para roxa e depois para uma brancura tão pálida que Jaime, preocupado, permitiu que ela mordesse um pastelzinho de Belém servido pelas aeromoças. Pra quê! Devia ter um ossinho no pastel, pois quase deu pro avião inteiro ouvir o creec do acrílico rachando!

Teresona foi obrigada a desembarcar com a boca fechada, sem falar nadinha, sob pena de a dentadura desmanchar. Mas a situação complicou mesmo foi na fila da alfândega. O policial que examinava os passaportes desandou a interrogar Teresona e ela só fazia sorrir feito retardada até Jaime, suando frio, arranjar uma desculpa convincente: “Mamãe é muda!” O policial acenou compreensivo e já ia devolver o passaporte quando, nesse exato momento, quem é que aparece? Uma ex-vizinha da Praia da Costa, esposa de um dos muitos síndicos que a dupla enrolou.    “Muda nada! Essa trambiqueira aí fala pelos cotovelos!” Discute daqui, discute dali, o embroglio vai aumentando, Teresona ficando cada vez mais nervosa até que perde sua cabeça de anta na explosão antológica (e odontológica) que forrou de diamantes o piso do aeroporto de Lisboa: “Eu sou muda sim!”

Pois é, quem nunca mais viu Teresona ou Jaime Caranguejo na Praia da Costa, agora ficou sabendo o motivo. Para alegria da alma torturada de Horácio, a dupla está gozando de merecidas férias numa cadeia de Portugal.

 

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