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Gente, vocês acreditam que em setembro nossa coluna comemorou 15 anos de existência? Como sou um eterno distraído, deixei a “efeméride” passar em branco, só lembrando agora, com um mês de atraso, justamente por causa do causo de hoje. É que desde o primeiro ano, quando a coluna saía no extinto jornal O Calçadão, coleciono episódios curiosos ocorridos em meu consultório com a intenção de um dia publicar tudo num pacote só. Ontem fui ver se já tinha material suficiente e, topando com a data do primeiro episódio, levei um susto ao me dar conta que venho escrevendo a coluna há 15 longos anos! Só que os parabéns quem merece são vocês, prezados leitores, por virem me aturando há tanto tempo.
Mas deixemos de papagaiada e vamos ao que interessa, começando por Tiago e Ana Paula, dois catatauzinhos que em 1993 ainda nem tinham aprendido a ler. Um dia, enquanto eu explicava à mãe deles que um dente com tratamento de canal era um dente morto, Tiago cutucou Ana Paula e perguntou: “Se o dente morre, será que ele vai pro céu?” Ana Paula sorriu do alto de sua sabedoria de irmã mais velha e respondeu: “Claro, seu bobão, morre e vai para o céu... da boca!”
Era a primeira vez da paciente, uma perua vaidosa, cheia de jóias, penduricalhos e gestos afetados. Vi que usava uma ponte móvel na boca, então pedi: “Por favor, a senhora pode tirar sua prótese?” A mulher arregalou os olhos, protegendo com as mãos a peitaria de silicone: “Tá doido, doutor? Tirar como? O cirurgião plástico prendeu com mais de 30 pontos!”
Essa aconteceu com uma advogada cinquentona. Ao devorar um saquinho daquelas pipocas doces grudentas, uma de suas coroas metálicas descolou, coisa muito comum, aliás. Até comigo já aconteceu. Avisei minha atendente: “Prepara o material que vou cimentar essa coroa aqui.” Minha Nossa Senhora! A advogada virou uma arara: “Que falta de profissionalismo, doutor! Não admito ser chamada de coroa, ainda mais na frente da sua secretária!”
Eu estava de costas, analisando a radiografia que tinha acabado de tirar. A paciente quis saber o que eu estava vendo. Virei e disse: “Você está com um corpo estranho.” Em vez de demonstrar preocupação, ela ficou toda embaraçada, vermelha de vergonha: “Sabe o que é, doutor, sempre fui magrinha, mas parei de malhar e ando comendo muito. Por isso fiquei assim, com esse corpo estranho...”
Havia uma confecção na Glória que mandava os vendedores passarem nos consultórios oferecendo roupa branca. Numa dessas ocasiões, minha antiga secretária, a Elenilda, resolveu experimentar um jaleco, mas acabou desistindo da compra: “Não serviu, ficou apertado porque eu tenho muito peito.” João Vitor, o filhinho dela, estava por perto e corrigiu: “Que muito peito, mãe? Você só tem dois!”
Dona Vicentina, uma roceira simplória, falava tudo errado. Uma vez, lá por volta de 99, provocou uma risada coletiva na sala de espera ao entrar quase chorando de dor de dente e gritando para quem quisesse ouvir: “Dotô, me acuda, pelo amor de Deus me acuda, dotô! Passei a noite em craro! Tô inté bamba das pernas de tanto meu marido me atochá navagina!” (nevralgina, ela queria dizer).
Outra de velhinha caipira, Dona Rosamaria, que falava pelos cotovelos, alugando os ouvidos de quem estivesse na sala de espera. No dia em questão, enquanto aguardava para tirar o molde da dentadura nova, alugou os ouvidos do sujeito errado, Seu Toninho, que era um doce de pessoa, mas perdia as estribeiras ao se sentir incomodado. Daí, a hora que ela falou “eu vim pro doutor tirar meu módis...” ele revidou na bucha: “Mas com essa idade a senhora ainda não sabe tirar o Modess sozinha?”
Teca trabalhou só um mês comigo, mês inesquecível. Uma figura, a Teca. Simpática, esforçada, mas meio burrinha. Meio não. Burrinha inteira. E ainda por cima tinha pavio curto. Uma tarde, preenchendo a ficha de um paciente novo, um funcionário italiano da CST, ela perguntou o local de nascimento. “Io nasci na Sicília, Palermo.” Vilma fez a cara de cachorro bravo que era sua especialidade e respondeu na bucha: “Palerma é sua avó, gringo ignorante!”
Mais uma da Teca. O homem chamava Geraldo Pinto Azevedo. No momento de assinar a ficha do convênio, como o espaço era acanhado, ele abreviou para Geraldo P. Azevedo. Pra quê! Indiferente à sala cheia, Teca estrilou, desando a berrar como se fosse o fim do mundo: “Não, não, não! O senhor tem que me botar o Pinto inteiro!”
Eu me preparava para começar uma cirurgia numa velha amiga minha, que demonstrava compreensível receio. Sabendo que ela era muito religiosa, tranqüilizei-a dizendo que não se preocupasse, “vai dar tudo certo, Jesus virá dar uma força pra gente”. No instante seguinte, a secretária abriu a porta e avisou: “Seu Jesus já chegou.” Jesus era o nome do próximo paciente, mas a incrível coincidência fez minha amiga cair na gargalhada: “Nossa, tá com moral com o Homem lá de cima, hein?”
A propósito, deu tudo certo na cirurgia. E nos 15 anos da coluna. Devo ter alguma moralzinha lá em cima mesmo.
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