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Começo pedindo perdão ao leitor pelo nome feio que lerá lá embaixo, no último parágrafo. Na verdade, embora feio, e muito feio, nem nome é e sim apelido, aliás, bastante apropriado para um... Epa, peraí! Se explicar aqui tiro a graça final do causo.
Não gosto muito de rótulos maniqueístas do tipo “fulano é bonzinho” ou “beltrano é do mal”. Acontece que existem pessoas tão ordinárias, tão canalhas, que às vezes dá vontade de abrir uma exceção. No caso do Alaor, desonrosa exceção, porque o sujeito sempre foi uma peste de ruim. Ou era, deve ter se emendado um pouco depois da fria em que entrou no ano passado. Apesar de Alaor ser um nome de mentirinha, que acabo de inventar, metade da Praia da Costa reconhecerá facilmente o filhodamãe quando eu disser que ele é um advogado solteirão, metido a galã bombado, que costuma passear pelo calçadão rebocando dois cachorrinhos idiotas, cujos nomes, Pompom e Pompinella, já dão uma pista da frescurice brega do dono. Brega, mas do mal. E mal abusado. Alaor confiava tanto na impunidade que sequer disfarçava a vigarice. Seu golpe favorito era alugar um apartamento e recorrer a expedientes legais para ficar um, dois anos morando de graça, sem pagar aluguel e condomínio. Aí, de repente, mudava roubando o que pudesse, até torneira de banheiro. Para completar, enquanto ficava no prédio, infernizava a vida dos vizinhos, promovendo barulhentas feijoadas que varavam a madrugada e quase sempre acabavam em baixaria. Quando as firulas da lei não funcionavam, apelava para a força bruta, ameaçando dar porrada em quem ousasse reclamar.
Um dia, Alaor alugou o apartamento de dona Celeste, uma viúva sem rendas que fora morar de favor justamente para poder sobreviver com o dinheirinho do aluguel de seu único bem. Ô ilusão! Todo fim de mês, quando ia receber, voltava de mãos vazias, ou melhor, cheias de desculpas e evasivas. Na última tentativa, que coincidiu com um sábado de feijoada, Alaor estava bêbado e deu uma tremenda prensa na pobre senhora, chegando ao cúmulo de estapeá-la e ameaçar de morte se abrisse a boca. Desesperada, dona Celeste foi se lamentar com o parceiro de dança, um velhinho pé-de-valsa que conhecera em um clube da terceira-idade. Seu Damião, era esse o nome do velhinho, ouviu calado a história, enxugou-lhe as lágrimas e avisou: “Amanhã, faz uma feijoada carregada no tempero e põe numa marmita, que nóis vai dá de cumê pro excomungado”.
No dia seguinte, ali pela hora do almoço, seu Damião e dona Celeste tocaram a campainha do apartamento de Alaor. Ele abriu. “Viemo cobrá os atrasado e le botá pra fora.” Alaor deu uma gargalhada cínica: “Vai cagar, vovô!” Sem alterar a voz, seu Damião respondeu: “Eu vou, ocê é que tão cedo num vai.” E enfiou nas fuças de Alaor uma imensa garrucha de dois canos. Quase mijando nas calças, o valentão foi levado para a cozinha. “Tira as carça e a cueca”, ordenou seu Damião. Alaor obedeceu, tremendo como vara verde. “Amarra ele, Celeste.” Dona Celeste amarrou Alaor com as cordas que tinham preparado de antemão. “Agora, serve a feijoada.” Alaor esperneou, recusando abrir a boca, talvez achando que a comida estivesse envenenada. “Ou ocê come ou eu passo na faca os dois cachorrinho.” Alaor comeu. Adorava Pompom e Pompinella. “Arrepete.” Alaor repetiu. “De novo.” De novo. “Mais uma vez”. Mais uma vez. Foi indo, chegou uma hora em que Alaor não conseguia engolir mais nada, de tão embuchado. “Agora é no funir”, disse seu Damião. Colocou um funil na boca de Alaor e foi despejando feijoada até o homem ficar verde, pronto para desmaiar. Então, seu Damião colocou diante dele um recorte de jornal. “Lê o que tá escrito, pra sabê quem queu sô”. Alaor leu: Após 30 anos no manicômio judicial, ganha a liberdade e volta para as ruas o famoso Damião Costura-cu, criminoso que aterrorizou o Norte de Minas nos anos 70 costurando os orifícios naturais de suas vítimas com anzol e linha de pescar. Seu Damião dobrou o recorte, guardou no bolso e deu o ultimato: “Escói. Ou paga os atrasado e some no mundo ou vorto pra rematá o serviço.”
Faz tempo que ninguém vê Pompom e Pompinella passeando na praia.
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