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Na última coluna, prometi voltar novamente no tempo, retomando as comparações entre nossa vidinha em 1980 e a vidona atual. Ou vice-versa. Aí, fiquei pensando por onde começar. O título não foi problema, caiu do céu logo no início da pensação: "Em Algum Lugar do Passado". Só que, assim como caiu, quase descaiu em seguida. Achei apelação plagiar o nome daquele filme famoso com o Christopher Reaves. Mas fui conferir no Google e, surpreso, descobri que o filme foi lançado exatamente em... 1980! Sincronicidade pura, como diz minha querida Nayara. Bem, já tinha o título. Faltava escolher as comparações.
Que tal abrir falando de tatuagens? Em 1980, tatuagem era negócio de marinheiro e maconheiro. O avô de um amigo meu era tatuado e o garoto morria de vergonha dele. Hoje virou moda. Mas moda é uma coisa cíclica. Aposto que os netos da atual geração tatuada também morrerão de vergonha de seus vôs e vós maluquetes. Assim como o piercing, outro adereço que certamente sairá de moda no futuro. Em 2040, a meninada de hoje esconderá suas fotos usando piercings assim como nós, atuais cinquentões, morremos de vergonha ao ver nossas fotos usando calças boca de sino. É provável que algo parecido também aconteça com esses rapazes bombados de academia, que voltarão a ser motivo de risadas como em 1980, quando ninguém ligava pra músculo a não ser pobre na fila do açougue. Carne de terceira. Sem valor.
Eu poderia lembrar que trinta anos atrás se podia andar sozinho na Praia da Costa, sem perigo, às três da madrugada. Cansei de fazer isso voltando das baladas. Hoje não dá pra andar em paz nem ao meio-dia de domingo. Nosso bairro tá parecendo luta de boxe. A cada três minutos, um assalto. E não é só assalto não, é tudo quanto é bandalheira. No reveillon, um casal encontrou um homem parado perto de seu carro. Urinando. Dentro do carro! Nem procuraram a polícia. Não adianta. O exemplo vem de cima, com o país cheio de políticos fazenda merda impunemente. E não venham me acusar de escrever palavrão num jornal de família. Também só estou seguindo um exemplo vindo de cima. Ou já esqueceram o Lula falando na televisão que queria "tirar o povo da merda"? Nisso não mudamos. A incontinência verbal dos presidentes já causava perplexidade nos anos 80, com Figueiredo dizendo que preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo.
Falando em presidência, e a Dilma, hein? Parece que começou com o pé direito. Vamos ver no que dá. Independente de gostarmos ou não dela, é a nossa presidenta, temos mais é que torcer pra que faça um bom governo. Estou confiante, embora tenha medo das concessões. Vê-la no dia da posse aos beijos e abraços com o Sarney e o Edir Macedo tirou um pouco do meu otimismo. Fora ter mantido o Pedro Novais como Ministro do Turismo. Pedro Novais é aquele deputado octogenário que levou quinze casais pra fazer uma orgia num motel e mandou a conta pra Câmara. Se bem que no fundo o gesto faz sentido. O panorama da política nacional é meio pornográfico mesmo e não duvido nada que o bom velhinho use a verba de representação pra comprar Viagra. O lado bom da posse foi, com todo respeito, a gostosíssima senhora Michel Temer. Já estão até propondo em Brasília mudar o nome da residência oficial do vice-presidente de Palácio do Jaburu para Palácio da Princesa. Nisso estamos bem melhor que em 1980. Dona Dulce, mulher do Figueiredo, era um tremendo canhão. Também com todo respeito.
Uma coisa que não mudou é temporal em Vila Velha. Os estragos continuam iguais aos de antigamente. O Neucimar Fraga bem que podia imitar o Bolsa Família do governo federal e criar pra nós o Balsa Família. Ajudaria muito na hora do aperto. Por falar em aperto, os aumentos de salário também não mudaram. Nem o cinismo. Os aposentados acabam de ter um aumento de 5,88%. O Judiciário de 56%. Vai ver o pão dos juizes é mais caro que o pão do povo. Em compensação, a prefeitura mudou. De lugar, mas mudou. Piadinhas à parte, Vila Velha tem hoje algo que era um sonho distante em 1980, uma lei de incentivo cultural. Aliás, milagre dos milagres, leis semelhantes pipocaram no estado inteiro: a Rubem Braga em Vitória, a Chico Prego na Serra, a João Bananeira em Cariacica e a lei de Cachoeiro, que também chama Rubem Braga, mas que os gozadores cachoeirenses querem rebatizar, em homenagem a Roberto Carlos, de Lei de Laura.
Em 1980, imaginávamos 2010 em plena era espacial, com hotéis na Lua e expedições a Marte. Quanta ilusão! O que acabou indo pro espaço foi a privacidade. Antes ninguém se expunha, havia uma certa reserva quanto a estranhos ficarem sabendo de nossas intimidades. Hoje está tudo escancarado. Um adolescente da Nova Zelândia chegou a botar à venda no site TradeMe as fotos de sua mãe. Pelada! Enfim, o tempo é de Big Brother, invasão total da privacidade. E a maioria nem se importa, pelo contrário, estimula, pondo suas próprias fotos e particularidades nos sites de relacionamento. O resultado é que espiar a vida alheia virou um esporte onde sequer os telefones se salvam. Temos milhões de celulares e nenhuma educação ao falar ao celular. Ficam todos berrando sem se incomodar com quem está por perto. O que não deixa de ser engraçado. Outra tarde, plantado numa fila, ouvi uma garota brigando com o ex-namorado: "Não vou gastar meus créditos pra ouvir você falando coisas sem anexo!"
Se agora temos facilidades impensáveis em 1980, como teste de DNA ou caixa-eletrônico, também complicamos o que era simples e natural. Caso do acarajé. Muitos evangélicos passaram a não comer acarajé porque, amém Jesus, é comida de Xangô! Nesse ponto, Vila Velha avançou, com a inauguração, na pracinha de Coqueiral de Itaparica, de uma barraquinha especializada em... acarajé gospel! Pois é, o mundo está andando tão rápido que nesses últimos trinta anos já teve até coisa que apareceu e desapareceu, como o videocassete. E coisa que entrou em desuso, como o freezer. Por causa da inflação, toda casa tinha um freezer vertical ao lado da geladeira. Cadê eles? Sumiram. Do mesmo modo que aqueles aparelhos de som enormes, com caixas que ocupavam metade da sala. Hoje é tudo muito prático, pequeno, quase invisível. Mas pra ouvir o quê? Meu Deus! Axé, funk e breganejo!
Eu poderia falar também das tribos. Já tínhamos tribos em 1980, só que eram contáveis nos dedos: as cocotas, os hippies, os playboyzinhos, os roqueiros e pouca variedade mais. Depois vieram as patricinhas, os mauricinhos, os pitboys, os góticos, os emos, os grunges e finalmente as recentes alcatéias de freegans, playsons e cosplayers. Sabe o que são freegans, playsons e cosplayers? Eu também não. Só sei que eles se comunicam entre si numa mistura cucaracha de inglês e português. Recorrendo de novo ao vocabulário do Lula, não é uma merda essa adoção radical de estrangeirismos? Não se faz mais intervalo pra lanche, é pro coffee-break Não se vai mais a restaurante de comida a quilo, se vai ao self service. Ninguém liga pra central de atendimento, liga pro call center. E tome delivery, dowload, upgrad, fedback... A parte boa é que ninguém mais guarda rancor, faz backup das mágoas.
Eu poderia falar disso tudo que listei aí em cima, mas que droga, trinta anos é muito tempo! Justamente quando estava quase descobrindo todas as respostas, não é que mudaram todas as perguntas? Fazer o quê. Bola pra frente. A vida é como andar de bicicleta. Se parar de pedalar, a gente cai. Bom ano novo! Em 2040, voltarei pra falar de 2011.
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