Dom, 01 de Novembro de 2009 00:00   
Aí são outros quinhentos

É comum a gente se perguntar de onde vêm as piadas ou de que modo misterioso surgiram certas expressões usadas pelo povo. Nem sempre se encontra uma resposta, pois, em geral, a maioria das pérolas da cultura popular é de origem obscura e difícil de ser pesquisada. Nenhum país, muito menos nosso caótico Brasil, mantém um organismo destinado a investigar a autoria de coisas como “caiu na rede é peixe” ou quem botou o nome de Joãozinho no sem-vergonha do Joãozinho, personagem onipresente em toda anedota que precise de um menino safado. É provável que muitas vezes não exista um autor, propriamente, mas a ocorrrência de um episódio fora do comum, que, aperfeiçoado enquanto passa de boca em boca, acaba se cristalizando na forma de piada ou expressão de uso corrente. Só mesmo por um golpe de sorte topamos com uma explicação datada, detalhada, razoável e crível. Foi o que aconteceu comigo o mês passado. Eu procurava material para outro tipo de trabalho, quando caiu em minhas mãos um pequeno almanaque de capa encardida, publicado em 1922 por uma farmácia de Vitória como brinde aos clientes. Folheando o achado, dei com uma litogravura da Igrejinha do Rosário ilustrando um texto apócrifo intitulado “Outros Quinhentos”, que li deliciado e tentarei resumir aqui para o leitor se deliciar também, mas avisando de antemão que não tenho como garantir sua veracidade.

Um sujeito de fora chegou em Vila Velha. Era um velhinho caipira de barbas brancas e ar tão honesto e inofensivo que logo ganhou a confiança de todos com quem conversava. E como conversava! Não podia ver uma rodinha que interrompia para perguntar:

– Vancês pode me dizê quem é o homem mais de bem da cidade?

Todos respondiam que não havia dúvidas, era Padre José, o vigário. O velhinho dizia então que tinha que continuar viagem e, temendo ser roubado, iria deixar todas as suas economias, 500 mil réis, em segurança com o padre. Depois de zanzar vários dias repetindo a mesma história, ele sumiu. Quando voltou, passados uns três meses, se apresentou na Igreja do Rosário:

– Padre José, vim buscá os quinhentos mirréis guardados com suncê.

– Que 500 mil réis? Nem te conheço! Ponha-se daqui pra fora!

O velhinho fez cara de choro, lamentou-se com os conhecidos e foi contratar um advogado em Vitória. Resultado: o caso desembocou na Justiça. No dia da primeira audiência, o tribunal estava repleto de testemunhas afirmando que o queixoso realmente anunciara a intenção de deixar o dinheiro com Padre José. Aquilo, mais o rio de lágrimas que o homem vertia, provocou um grande constrangimento no vigário, que não sabia mais o que fazer para provar sua inocência. Comovido, um paroquiano rico, proprietário de metade das terras da Barra do Jucu, decidiu livrá-lo do aperto e, pedindo licença ao juiz, ergueu-se balançando um maço de notas:

– Onde você está com a cabeça, meu amigo? Não foi com o padre que deixou o dinheiro, foi comigo, olha ele aqui!

– Não sinhô! – contestou o velhinho, enxugando as lágrimas – Tá pensando que eu sou besta, é? Esses aí são oooutros quinhentos! Dispois num vá negá tomém...

 

 

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