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Deu trabalho, mas valeu a pena. Tenho certeza que o leitor se deliciará com a penca de saborosos causinhos infantis que colecionei ao longo do ano para publicar agora em outubro, o mês das crianças. Bora começar?
Desde pititinha, Juliana é apaixonada por todas as formas de vida, de aves a insetos, vacas a bactérias. Uma vez, ela foi ao consultório da Lara, minha colega odontopediatra e, mal sentou na cadeira, avisou, seriíssima: “Tia, a mamãe falou que a senhora vai matar os bichinhos que fizeram buraco no meu dente, mas eu quero pedir uma coisa. Não precisa matar os bichinhos não, viu? Só tira fora, tá bom? Não mata não!”
Professor Galvão adora escrever cartas à moda antiga, catando milho numa veneranda máquina de escrever Olivetti. É o que está a fazer quando recebe a visita do neto de sete anos acompanhado por um amiguinho da mesma idade. Abismado com a máquina de escrever, objeto que jamais vira na vida, o amiguinho pega o celular e liga para casa: “Pai, sabe o que tem aqui onde eu tô? Um computador sem fio, que escreve e imprime ao mesmo tempo!”
Artur tem seis anos e pais divorciados. Passando um final de semana no sítio do pai assiste ao nascimento de uma ninhada de gatinhos. Na volta, entusiasmado, conta tudo para a mãe: “É um montão de gatinhos e o legal é que tem gatinhos-meninos e gatinhas-meninas!” A mãe estranha: “Como é que você sabe disso?” “Ora, porque cada um que nascia o papai levantava e olhava embaixo, na etiqueta.”
Feliz da vida por ter aprendido a ler, Carolina soletra tudo quanto encontra escrito, inclusive o rótulo do xampu que está usando enquanto toma banho. De repente grita aflita pela mãe, que acode ainda mais aflita: “Que foi, filha? Que aconteceu?” “Preciso de outro xampu. Esse aqui tá escrito que é pra cabelos secos e meu cabelo tá molhado!”
A mãe de Bruno foi fazer mestrado na Espanha e levou o filho junto, aproveitando a viagem para prepará-lo sobre a mudança de idiomas: “Sabia que você vai ganhar uma língua nova na escola?” Dias depois, já instalada em Madri, a mãe vai buscar Bruno ao final do seu primeiro dia de aula, ouvindo da professora que ele participara de todas as atividades, porém sem dizer uma única palavra, não abrindo a boca sequer na hora do lanche. Só em casa, bem longe da escola, Bruno revelou o motivo: “Fiquei de boca fechada pra ninguém trocar minha língua!”
Dona Nina dá um presépio para a netinha Patrícia. Encantada, a menina fica horas ouvindo a avó falar sobre os Reis Magos, os pastores, o Menino Jesus, Maria e José. Mais tarde, quando o pai volta do trabalho, Patrícia repete tudo para ele: “Esses são os três reis magros de fome; aqueles ali os pastores que aparecem orando na televisão e aqui tem o Menino Jesus, a Ana Maria Braga e o Louro José!”
Rafaela, quatro anos, acorda os pais no meio da noite para uma pergunta quase filosófica: “Mãe, quando você era criança, quem que era a minha mãe?”
Agora, uma historinha publicada no Globo pelo colunista Ancelmo Góes. Diz que lá em São Paulo, no salão nobre do Palácio dos Bandeirantes, o governador José Serra tinha acabado de proferir um discurso inflamado, quando Toninho, seu neto de seis anos, subiu numa cadeira para alcançar o microfone e, mãos na cintura, provocou gargalhadas gerais ao passar um sabão no avô: “Você se acha, né, vô Zé?”
A professora da 1ª série manda João Paulo escrever no quadro negro o antônimo de DIFÍCIL, lembrando, como dica, que “antônimo é o contrário”. O contrário? João Paulo não conversa, pega o giz e sapeca no quadro: LICÍFID. Tem lógica, não tem?
Até vir morar em Vila Velha, a mineirinha Luiza nunca tinha ido à praia e em matéria de água, só sabia brincar na piscina de plástico que o pai armava no quintal. Ao saber que ela iria entrar no mar pela primeira vez, lá de Minas uma tia zelosa preveniu pelo telefone: “Olha lá, hein, cuidado pra não afogar!” Resposta certeira de Luiza: “Tem perigo não. Eu seguro na beirinha!”
Decidida a podar os cabelos de Gabriel, que já batem nos ombros, sua mãe empunha uma tesoura e vai até o quarto dele. Cercado de brinquedos, Gabriel não gosta da intromissão e faz cara feia. “É rápido, filho e não dói nada. Prometo que vou cortar só dois dedinhos.” Gabriel embirra, esperneia, grita “não-não-não” e, chorando muito, se esconde debaixo da cama, só aceitando sair após uma intensa e carinhosa negociação materna. Parece conformado, mas não tira os olhos da tesoura enquanto diz: “Tão tá, mamãe, se é pro meu bem, eu deixo. Pode escolher os dois dedinhos pra cortar.” Ao ver o filho oferecendo as mãozinhas abertas em sacrifício, a mãe é quem cai no choro.
Eu avisei lá no título, o último é de partir o coração. Até o mês que vem, gente!
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