Sáb, 01 de Agosto de 2009 17:17   
A sogra do quiabo

Hoje não haveria causo. Estamos todos tão indignados com os últimos acontecimentos no Senado Federal, que planejei dedicar a coluna inteira às baixarias da família Sarney e à cara de pau do Lula em defender o rei do Maranhão para não perder o apoio do PMDB. Já tinha até arranjado uma bela frase de efeito para abrir o primeiro parágrafo: “O presidente Lula não tem princípios, tem fins.” Ia ficar bonito, não ia? Pois é, mas aí de repente me cai nas mãos um causo estalando de novo e ainda por cima daqueles clássicos, gostosos de saborear, envolvendo sogra, empregada e marido safado. Não pensei duas vezes. Sacanagem por sacanagem, melhor rir de uma inofensiva sem-vergonhice local do que chorar de vergonha com a bandalheira nacional. Né não?

Então vamos lá, começando pelo nome do herói. Nome não, apelido. Quiabo. Desde criança o apelido do Quiabo é Quiabo. Quer dizer, desde criança não, desde agorinha mesmo, pois acabo de rebatizá-lo para não entregar seu verdadeiro apelido, que é o nome de outro legume bastante popular. Por pura precisão conexa, ou seja, exigência de anonimato absoluto para todos os personagens do causo, rebatizo também a sogra do Quiabo, que chamarei de... humm... Epifânia. Isso! Epifânia é o nome ideal para uma sogra geniosa que vive às turras com o genro. Cá pra nós, os dois nunca morreram de amores um pelo outro. A implicância mútua vem lá de trás, da época do enxoval, quando Epifânia e a filha disputavam a posse de um faqueiro de prata e Quiabo se meteu na discussão, xingando a sogra de jararaca gananciosa. Pra quê! Ganhou uma inimiga mortal, embora dissimulada, pois Epifânia, perua classuda, limitava-se a aplicar eventuais e discretas ferroadas, aguardando o momento certo para o bote definitivo, bote esse que começou a ser armado quando Quiabo parou de jogar e passou a viver à custa da mulher.

Eu explico. Quiabo era jogador de futebol. Bonzinho até, segundo me garantiu seu primeiro técnico, o Marquinhos Magalhães (que, a propósito, vem batendo um bolão como secretário de esportes de Vila Velha): “O rapaz tinha futuro, Jovany, qualquer hora ia surpreender a gente com uma convocação pra seleção, mas aí...” Aí babau! Estourou um desses ossinhos que só parecem existir no joelho dos jogadores de futebol e a carreira de Quiabo acabou. A grana também. Sorte que a mulher dele recebia um bom salário e o amava o bastante para sustentá-lo no ócio e na vadiagem.

O esdrúxulo arranjo incomodava Epifânia e dobrou em incômodo quando a filha foi passar seis meses em Miami representando a exportadora onde trabalhava e deixou Quiabo sozinho no apartamento da Praia da Costa. Sozinho não. Mal a mulher levantou vôo no aeroporto de Goiabeiras, ele despediu a empregada velha e contratou uma nova. Ao dizer nova, eu quero dizer nova mesmo! Dezoito anos, bonita de rosto, jeitosa de corpo e predisposta a se dar bem na vida, tão predisposta que em menos de uma semana sua predisposição já dormia peladinha na cama do patrão. Com o patrão, claro.

Mais que a cegueta da filha, Epifânia prometera a si mesma manter vigilância constante sobre as atividades do genro e assim que uma voz feminina diferente atendeu ao telefone do apartamento, ela se despachou para a Praia da Costa. Foi recebida com mil gentilezas e um esplendido almoço, temperado com os elogios de Quiabo: “Viu, dona Epifânia, como cozinha bem a moça que eu arrumei?” A resposta de Epifânia veio gelada como o sorvete da sobremesa: “É, na cozinha tô vendo que ela é boa, resta saber como é a bondade dela nos outros cômodos da casa.” Quiabo fez-se ofendido: “Quê isso, sogrinha, larga de desconfiança! Juro que meu relacionamento com a moça é puramente profissional!” Epifânia olhou-o em silêncio, mas preferiu não encompridar a conversa. Terminando o sorvete, despediu-se e caiu fora.

Na manhã seguinte, ao voltar do costumeiro banho de praia, Quiabo encontrou a empregada aflita: “Sabe o faqueiro de prata que usamos ontem no almoço pra agradar sua sogra? Sumiram três garfos.” Quiabo quase teve um chilique: “Droga, como fui esquecer? A jararaca gananciosa vivia babando pelo faqueiro! Ah, ladrona, pensa que vou deixar barato? Pois tá muito enganada!” Quiabo correu para o computador e escreveu um e-mail para Epifânia (com, pura maldade, cópia para a esposa em Miami): “Querida sogrinha, não estou querendo dizer que a senhora pegou ou querendo dizer que a senhora não pegou nossos talheres de prata, mas o fato é que eles desapareceram logo após o almoço de ontem.”

Meia horinha depois chega o e-mail resposta de Epifânia (com, maldade pura, cópia para a filha em Miami): “Querido genro, não estou querendo dizer que você dorme ou querendo dizer que você não dorme com a empregada, mas o fato é que, se ela estivesse dormindo no quartinho dela, já teria achado debaixo dos lençóis de sua cama os três garfos que eu coloquei lá.”

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