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O causo de hoje é integralmente verídico, com a costumeira exceção dos nomes dos personagens, que sempre tomo a precaução de trocar. Para o leitor entender melhor a trama, acho bom primeiro apresentá-lo ao soldado Brito, um pracinha brasileiro que lutou na Itália durante a Segunda Guerra Mundial e em cujo caderno de memórias consta a seguinte anotação: “No dia 28 de abril de 1945, na região de Collecchio, meu pelotão avançava a pé quando topamos com um automóvel alemão tombado à beira da estrada, todo perfurado por balaços de metralhadora. Havia dois defuntos dentro do veículo e pelas insígnias no uniforme, deu para ver que um deles era um coronel nazista. Foi na bagagem desse coronel que encontrei meu quadro da Virgem Maria.”
Muito bem. Terminada a guerra, o soldado Brito voltou para o Brasil, cavou uma nomeação no antigo Departamento de Correios e Telégrafos e veio trabalhar em Vila Velha, onde noivou, casou, teve filhos, netos, bisnetos etc. Os moradores mais antigos devem lembrar dele como Seu Brito Carteiro, um varapau comprido, de sorriso discreto e pouco palavreado, morto de velhice uns poucos anos atrás. Aliás, é depois de sua morte que nossa história começa de fato. Como dona Rita, a viúva, insistiu em continuar morando na casa da rua Castelo Branco, uma de suas netas, a Magaly, mudou-se para lá com a família (oficialmente para fazer companhia à avó, de verdade mesmo para economizar aluguel). Nos primeiros tempos o arranjo até que deu certo, mas ganhou azedume quando Magaly se converteu a uma religião neopentecostal e passou a implicar com o quadro da Virgem Maria: - "Isso é idolatria, vó! Não se pode adorar imagens! Não é de Deus!..."
Dona Rita ficava uma arara: - “Faz 60 anos que seu avô trouxe esse quadro da guerra e 50 que ele taí na parede abençoando nossa família! Como é que não é de Deus? Você tem é que parar de ficar falando essas coiseiras na frente do Bruninho. Vai acabar virando a cabeça do menino!”
Bruninho é o filho mais velho de Magaly. Na véspera do aniversário de sete anos do garoto, dona Rita caiu no banheiro, fraturou a perna e foi despachada para uma temporada de molho na cama. Aí, as discussões entre avó e neta passaram a ser gritadas. Da sala, Magaly esconjurava a idolatria, ameaçando queimar o quadro. Do quarto, dona Rita exigia respeito à Virgem Maria e lembrava: - “Ó o Bruninho ouvindo! Ó o Bruninho ouvindo!”
Certo dia, a irmã de Magaly apareceu para visitar a avó, levando junto o namorado novo, um pedante professor de artes da UFES que gastou a visita xeretando e fotografando o quadro da Virgem.
Na manhã seguinte, Magaly lia a bíblia na varanda em voz alta quando viu um carro estacionar e dele descerem sua irmã e o namorado professor. Cara de urgência urgentíssima, a dupla atravessou a varanda e entrou na sala. - “Cadê o quadro que tava aqui?” berrou a irmã. Magaly acudiu e se espantou ao ver a parede nua: - “Ué, é verdade! Onde foi parar o maldito quadro que vovô cometia o pecado de adorar? Aposto que é obra de Deus! O Senhor fez o quadro sumir! Aleluia! Amém! Aleluia!” A palidez da irmã e a súbita aflição do professor perturbaram Magaly e ela deu uma pausa nas aleluiadas e aménzadas.
- Por que estão tão interessados naquilo?
O professor trazia consigo um livro grosso de capa dura. Enquanto o abria, explicou a Magaly: - “Alguma vez já ouviu falar de Agnolo Bronzino? É, eu imagino que não. Bronzino foi um grande pintor renascentista italiano do século 16, um daqueles artistas geniais da turma de Florença. Infelizmente, sua obra mais famosa, a Madonna di Pesaro, foi roubada pelos alemães em 1945 e está desaparecida desde então. Veja se a reconhece nessa reprodução...
Magaly arregalou os olhos ao ver estampada no livro...
- A Virgem Maria do vovô! Nossa, me deu até um calor agora! Isso deve valer um dinheirão, né?
- Com certeza. Eu diria que no mínimo, por baixo, um milhão.
- Um milhão de reais!?
- Reais não. Euros.
- Um-mi-lhão-de-eu-ros!? Caraaaca! Temos que achar essa Madonna, gente! Procura! Ela tem que tá por aqui em algum lugar!
Bruninho entrou na sala.
- Filho, você viu onde foi parar o quadro da parede?
- Aquele que a senhora fala que não é de Deus?
- Isso! Você sabe dele?
- Sei sim. Levei lá pra fora e fiz o que a senhora queria fazer: taquei fogo! Queimou tudinho, mamãe, tudinho!
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