Seg, 01 de Junho de 2009 10:45   
Entre aspas

Quem me conhece sabe que meu consultório fica no edifício Atlântico Sul, aquele prédio comercial em cima da agência da Caixa Econômica Federal do Centro de Vila Velha. Calma, leitor. Não é propaganda não, nem minha nem da Caixa. É que as informações são importantes para você entender a “grandiosidade” do causo de hoje, acontecido nove anos atrás por obra de um vizinho de corredor, o Virgílio, advogado embrulhão, ruim de serviço, que tinha uma clientela mixuruca e, para desespero da esposa Jandira, vivia pendurado na mão dos agiotas. Eu disse desespero porque o pai de Jandira, coronel aposentado da PM, criara a filha toda certinha, ética, cheia de regras e a coitada morria de vergonha das estripulias do marido.

Pois bem. Um dia o coração do coronel baqueou e ele foi para São Paulo tratar-se no Incor, deixando com a filha as chaves do apartamento da Praia da Costa. O espertinho do Virgílio, sabendo que o sogro tinha um revolver muito valioso, um Smith & Wesson calibre 44, com coronha de madrepérola e cano niquelado, convenceu Jandira a emprestar-lhe a arma por uns dias:

– É só por precaução. Um cliente aí que eu perdi a causa anda me ameaçando.

Mentira. O que Virgílio fez foi repassar o trabuco para um agiota em troca da quitação de uma dívida vencida e em seguida forjar um roubo para justificar-se com o sogro. O primeiro passo foi telefonar para Jandira:

– Passa aqui hoje pra gente almoçar junto, querida.

Ela disse que ia. A hora aprazada, Virgílio ficou vigiando da janela. Quando viu a mulher lá embaixo na rua, entrando no prédio, foi para o corredor e, assim que a porta do elevador abriu, começou a gritar por socorro. Todos nós acudimos. Ele pediu água, fez suspense, abraçou Jandira:

– Uma tragédia! Eu tava com o revolver na mesa, limpando pra devolver pro teu pai, quando senti vontade de fazer xixi. Ao sair do banheiro, ainda abotoando as calças, dei de cara com um ladrão pegando o revolver e fugindo!  Eu quis ir atrás, mas fiquei com medo.

– Fez bem, – concordou Jandira – com bandido não se brinca. Viu a cara dele?

– Foi tudo muito rápido, não deu pra ver direito. Sei que era moreno e usava camiseta branca. É tão pouco, né? Acho que nem adianta chamar a polícia.

Tarde demais. A secretária da sala em frente já havia chamado e, na aflição do momento, quando perguntaram do outro lado do telefone o local da ocorrência, ela disse que era no prédio da Caixa. “Onde?” “Na Caixa! Na Caixa de Vila Velha!” A palavrinha mágica acionou imediatamente todo o esquema de vigilância bancária. Em poucos minutos o trânsito foi interrompido e o prédio isolado por uma dúzia de radiopatrulhas e uns 50 policiais. Homens da tropa de choque usando máscaras ninja e armamento pesado, travaram os elevadores e começaram a subir pelas escadas. No meio da rua, usando o alto-falante de uma Kombi do Baú da Felicidade, um tenente avisava a todos para se manterem trancados em suas salas. No nosso andar o clima era de piada, mas nos outros, pessoas entravam em pânico, choravam, ligavam pros parentes. Os PMs batiam nas portas com as escopetas, invadiam revistando tudo. Apavorado, um cabeleireiro boiola do sexto andar ameaçou jogar-se da janela e metade da multidão reunida lá embaixo, emocionada, gritava “não pula! não pula!”, enquanto a outra metade, safada, gritava “pula! pula!”. Uma equipe de televisão passou a transmitir ao vivo, causando comoção em toda a Grande Vitória, pois ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo, a cada instante surgia uma versão diferente, de bomba e seqüestro a incêndio, por causa da chegada de dois carros de bombeiro.

Três horas durou aquela anarquia e só terminou quando a televisão mostrou a polícia arrastando para fora do prédio um moreninho de camisa branca, aos prantos, coitado, jurando inocência.

– Cadê a arma, filho da puta?

– Que arma, seu PM? Eu sou trabalhador, pai de família! Só vim aqui pra distraí um dente no dentista!

Tomado de remorsos, Virgílio confessou a verdade. Foi autuado por perturbação da ordem pública, tomou uma baita vaia da multidão e ainda ficou com os braços roxos, tanto beliscão levou da Jandira e da bichona do sexto andar.

A história poderia terminar por aqui, mas como o destino é um roteirista imprevisível, poucos dias depois, lá em São Paulo, o coração do coronel decidiu paralisar definitivamente as atividades, remetendo o velho policial para a aposentadoria eterna. Passada a choradeira e a missa de sétimo dia, a família abriu o testamento. No terceiro parágrafo, curto e seco, quem lia, leu:

– Abre aspas. Deixo o Smith & Wesson para meu genro Virgílio, que sempre gostou muito dele. Fecha aspas.

 

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