Qui, 01 de Janeiro de 2009 12:11   
Eu poderia estar roubando...

Quem me conhece sabe que detesto dirigir. É uma esquisitice anacrônica? É. Ainda mais quando se vive numa sociedade movida à gasolina. Mas estou em ótima companhia: Sartre, Reagan, Jorge Amado, Paulo Autran, muita gente boa nunca dirigiu e se virou sem carro a vida inteira. Como? Eles eu não sei. Falo por mim. Morando na Praia da Costa e trabalhando no centro de Vila Velha, sempre andei a pé, de bicicleta, táxi ou carona. Acontece que, encantado com um maravilhoso apartamento no Parque Moscoso, mudei para Vitória quatro anos atrás, embora mantendo meu consultório em Vila Velha. Foi assim que me transformei em mais um sofrido usuário do Transcol, até não suportar mais o vai-vem diário e remudar (este mês) para a Praia da Costa.

Acredito que a maioria dos meus leitores tem carro e raramente usa ou nunca usou os ônibus amarelos do Transcol. Mas seus filhos, empregadas e porteiros usam e podem testemunhar que é verdade, uma verdade rotineira, o que transcreverei aqui, ocorrido no meu último dia de Parque Moscoso.

A VINDA. Sete da manhã. No meio do maior aguaceiro ando até o ponto do Transcol situado em frente ao Palácio Anchieta. Apesar da localização privilegiada, à vista dos olhos do governador, o ponto não dispõe de nenhum banco ou abrigo e tenho que aguardar em pé debaixo da chuva. Depois de 20 minutos, um ônibus se aproxima. Está tão lotado que passa direto sem parar. O povo no ponto reclama, xinga, esperneia. Em vão. O jeito é esperar outros 20 minutos de chuva. O próximo ônibus também chega lotado, mas pelo menos pára. Espreme daqui, espreme dali, metade do povo embarca, metade não cabe e é deixado para trás. Estou na metade que consegue embarcar, ainda que à custa de receber (e distribuir) vários pisões e cotoveladas. A viagem é terrível, um exercício coletivo de equilíbrio, com a multidão lutando para se manter em pé e ao mesmo tempo tentando não se sufocar com a falta de ar, uma vez que todas as janelas estão fechadas por causa da chuva. Um menino vomita no colo da mãe. Uma moça dá um tapa no dono de uma mão-boba. Passa mal um dos muitos velhinhos que tem passe-livre e viajam em pé em torno do motorista. Não sei como, surge um vendedor de não-sei-quê: “Eu poderia estar roubando, eu poderia estar matando...” Enfim, 50 minutos mais tarde, após vencer uma série de engarrafamentos, inclusive no alto da Terceira Ponte, o ônibus pára na pracinha de Vila Velha e eu desço aliviado.

A VOLTA. Seis da tarde. Chove forte enquanto ando até o ponto do Colégio Marista. Andar é força de expressão. Na verdade, atolo no lamaçal em que as calçadas da Champagnat se transformaram graças a essa reforma eleitoreira mal planejada e pior executada pelo Prefeito Max Filho. O ponto já está cheio, mas a cada minuto chega mais gente, a maioria trabalhadores com expressão de cansaço. Uma mulher chora. Tinham acabado de roubar seu celular. O tempo passa. Já são seis e meia quando, após novo duelo de pisões e cotoveladas, consigo embarcar num ônibus quase tão lotado quanto o anterior. Quinze minutos demora a travessia da Champagnat esburacada, do Marista à esquina da Hugo Musso! No ponto do Moby Dick entram três rapazes com pinta de assaltante e todos prendemos a respiração durante a meia hora que o ônibus gasta para cruzar a Terceira Ponte e driblar os engarrafamentos até alcançar o Centro de Vitória. Dá para sentir o medo no ar. Ainda bem que o trio só rouba nossa tranqüilidade batendo na lataria e berrando um funk cuja letra fala em drogas, armas e assassinatos. Dá dó ver um pai tapando os ouvidos da filha para a menina não ouvir os palavrões do refrão.

Como tudo tem um lado bom, nesses quatro anos de Transcol acabei travando várias amizades, daquelas nascidas na solidariedade mútua que brota nas situações de aperto. Um desses amigos transcolíticos, o Gelson Padeiro, estava na minha última viagem e me contou sua idéia para resolver os problemas do transporte urbano. Ó só a idéia dele, na voz dele: “É fácil. Basta criar uma lei obrigando o sujeito que ocupa cargo eletivo a ir para o trabalho de buzu. Sem exceções. Seria um item obrigatório do pacote-eleição. Quer ser prefeito, vereador, deputado, governador? Então já sabe. Eleito, terá que ir trabalhar de Transcol. Durante o expediente, pode usar carro oficial, mas antes de bater o ponto (taí outra boa sugestão, autoridade bater ponto!), tem que se apertar nos ônibus partilhando o suor de seus eleitores. Já imaginou que beleza? Paulo Hartung, Neucymar Fraga, João Coser, os vereadores, a deputadaiada toda, sem distinção de sexo ou partido, tudo esperando nos pontos, debaixo de chuva ou de sol, penando em silêncio (pois não poderiam sequer desabafar reclamando das autoridades, ou seja, de si mesmos) e depois viajando em pé nos ônibus lotados, entre pisões e encoxadas, com direito a um mínimo de um assalto violento por ano, fora os ladrões ocasionais de celular!  Que tal a idéia? Não é genial?”

Tive que concordar: “Claro que é genial, rapidinho, as soluções apareceriam! Mas quem toparia criar essa lei? Os vereadores? Os deputados? O Governador? Esqueça, meu amigo, todos alegariam que uma lei assim, além de perigosa para sua segurança pessoal, atentaria contra a dignidade dos cargos que ocupam.” “Ué, então só tem dignidade quem tem cargo? O povo é indigno!?” A frase foi dita com tanta veemência que até os funqueiros se calaram, no que Gelson aproveitou para completar: “Quanto à segurança, claro que andando de ônibus eles podem ser assaltados, podem até mesmo ser mortos no assalto. E daí? O povo também não vive sendo morto?”

O ônibus parou no Parque Moscoso. Desci refletindo nas sábias palavras do Gelson. Realmente, nosso povo vive sendo morto. Senão de fato, ao menos de raiva.

 

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