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Em geral, um apelido acompanha o sujeito a vida toda. Não foi o caso de João Demais. Desde a juventude, Vila Velha inteira o conhecia assim, por João Demais, o homem mais alto, mais forte e mais encrenqueiro da cidade.
A partir da festa da Penha de 1954, ele virou João De Menos. Não que tenha mirrado de corpo ou perdido a força. Pelo contrário, engordou bastante e daquelas estranhas engordadas repentinas que deixam a pessoa até meio lustrosa, com cara de porco ensaboado. Abrandou também a rudeza de espírito, embora da pior forma possível, porque depois da... ãn... diminuição, perdeu o juízo e passou o resto de seus dias vagando pelas ruas com um sorriso demente-babão, que, se comovia os espíritos mais sensíveis por um lado, por outro alertava os pecadores para a onipresente justiça do aqui-se-faz, aqui-se-paga.
Quando ainda era Demais, João se sustentava com o que lhe rendia o oficio de abatedor de bois no matadouro municipal. Não era muito, mas garantia a posse de um cavalo, o aluguel de um barraco, a bóia e a cachaça, principalmente essa, causa maior de sua perdição. Embriagado, avalentava e saía correndo atrás de rabo-de-saia e comprando briga, quase sempre uma coisa em função da outra. Num baileco da citada festa da Penha de 54, ele cismou de dançar com uma moça casada, a Tancinha, mulher de um certo Inácio que trabalhava como colono numa fazenda às margens do rio Aribiri,
quando Aribiri ainda era um rio decente e não aquela obra de natureza morta que é hoje. Tancinha recusou a dança, João insistiu, quis engrossar e o pacato casal achou mais prudente esquecer o baile e voltar para Aribiri na velha bicicleta, único patrimônio da família, ele pedalando, ela sentada no guidão. Fuga inútil. João Demais os seguiu até um lugar deserto, deu uma sova em Inácio, estraçalhou a bicicleta nas patas do cavalo e, indiferente ao choro desesperado de Tancinha, abusou da coitada ali mesmo, diante do marido.
No dia seguinte, humilhado, Inácio procurou Seu Sizino, o dono da fazenda.
Avisou que ia voltar para o interior com a mulher. “Mas vocês não estão satisfeitos aqui?” “A gente tava, sim senhor, mas é que ´conteceu um troço ruim.” “Que troço ruim? Anda, fala!” Inácio falou. Fazendeirão à moda antiga, Seu Sizino ficou uma arara: “Se quer ir embora, vá, mas antes temos que limpar a honra, a sua e a minha, porque não admito desfeita com quem está a meu serviço.” Ato contínuo, sem deixar Inácio replicar, chegou à janela e gritou para dois peões de confiança: “Jorge! Firmino! Apanhem as espingardas, um rolo de arame farpado e tragam o jipe. Temos um servicinho a fazer.”
João Demais tinha o costume de rescaldar as bebedeiras com café. O jipe chegou no exato momento em que esquentava o bule no fogão à lenha. Ao ver Seu Sizino e comitiva invadindo sem-cerimônia o barraco, tremeu nas bases,
adivinhando o que ia acontecer. Justiça seja feita, num primeiro momento, aguentou firme, sem implorar por misericórdia, mas afinou a voz quando Seu Sizino ordenou que o deixassem pelado enquanto buscava entre seus trastes o facão de matar boi: “Se tenho que morrer pra pagar o erro que cometi, então quero morrer inteiro, como homem!” Seu Sizino nem deu confiança. Só fez ordenar a Inácio: “Enrola cinco palmos do arame farpado no bicho do bicho.” Inácio hesitou, enojado, mas lembrou das lágrimas de Tancinha e obedeceu. “Agora, sobe na mesa e amarra a outra ponta do arame no pau da
cumeeira.” Inácio amarrou. “Jorge, atiça fogo na lenha. Muito fogo. Quero o barraco queimando até esturricar.” Ordem cumprida, Seu Sizino colocou o facão em cima da mesa e sorriu para João um sorriso de juiz cruel: “Se não quiser morrer torrado, use o facão pra se soltar. Vão bora, minha gente.”
Sozinho no barraco em chamas, João chorou, rezou, esperneou, mas acabou fazendo o que tinha de fazer e foi assim que, de mais, virou de menos e entrou para o folclore de Vila Velha.
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