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O “causo” que contarei hoje é verídico, tem um viés cômico, mas no fundo é trágico e sua moral, se é que comporta alguma moral, nada tem de engraçada. Ao contrário, leva a gente a refletir sobre a intolerância racial e sobre o que andamos fazendo do mundo que Deus nos deu.
Quem me contou tudo e autorizou a publicação foi o próprio protagonista. Fonte mais que fidedigna, portanto. Embora tenha me contado somente umas poucas semanas atrás, o episódio não é recente, ocorreu no final dos anos 70, quando a Praia da Costa ainda era um bairro horizontal, quase sem edifícios, mas com o visual comprometido pela ruela de barracas e quiosques andrajosos que margeava boa parte da orla.
Era um domingo de verão. Praia cheia. Depois da tradicional tostada ao sol, Nelsão decidiu saborear um peroá frito e aboletou-se com a família e alguns amigos na famosa barraca do Joel. Até hoje Nelsão faz jus ao aumentativo nominal. É um negro imenso e musculoso, funcionário aposentado da Vale do Rio Doce. Apesar da aparência de feroz guerreiro zulu, tem um jeito doce e o mesmo sorriso largo que conquistou o coração de sua esposa Marlene, uma “alemoa” bonitona de Santa Leopoldina. O casal teve dois filhos. Por artes da genética, o mais velho puxou ao ébano do pai e o caçula a loirice da mãe. Esse caçula é atualmente um cardiologista sério e compenetrado, mas aos cinco anos era um pestinha que não parava um minuto quieto. Daí...
Joel ainda estava servindo o peroá quando o menino aproveitou a distração dos pais e saiu correndo praia afora, metendo-se entre a multidão de banhistas. O irmão deu o alarme e Nelsão foi atrás. Procura daqui, procura dali, depois de muita canseira acabou encontrando o fugitivo entre os surfistas que faziam ponto em frente à saudosa Casa do Navio. Bravo, passou-lhe um sabão, colocou-o debaixo do braço e tentou voltar para a barraca do Joel. Eu disse tentou porque o danado do pirralho desatou a chorar e berrar, armando o maior escândalo: “Socôro, socôro, tão me rapetando, tão me rapetando!” Pra quê! Vendo um negro forte, com cara amarrada, carregando à força um menininho de pele clara, que chorava desesperadamente, dezenas de garotões malhados cercaram Nelsão, tomaram-lhe o filho e, estimulados pela mulherada da praia, desceram porrada no coitado, que não conseguia sequer abrir a boca para se explicar. Assustado com aquela selvageria, o menino esperneava e chamava pelo pai, mas quanto mais chamava, mais o povo tentava acalmá-lo: “Calma, vamos encontrar seu pai, fique calmo!” E tome cacete!
Felizmente, a bagunça chamou a atenção da polícia e Nelsão foi salvo do linchamento. Mas jogado num camburão e levado para a delegacia, onde, completamente zonzo e todo machucado, ainda tomou mais alguns sopapos até Marlene e os amigos aparecerem para esclarecer a confusão e “desrapetá-lo” das garras da Lei.
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