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Tem gente que não acredita em macumba.
E tem gente, como eu, que desacredita com moderada descrença, pois, como dizem os espanhóis, as bruxas existem, mesmo que não acreditemos nelas. Um dos motivos do meu ceticismo ser um tanto relativo está na raiz da história que contarei, acontecida muitos anos atrás com o falecido Waldir Ratinho. Para quem não lembra, Waldir era o dono de um restaurante de frutos do mar encravado na areia de Itapuã, bem no coração da antiga colônia de pescadores.
Trouxera da Bahia, onde nascera, a devoção pelo Caboclo Tranca-Rua, entidade que o apadrinhava e o protegia. Apesar de amigo pessoal de muitos políticos, almirantes, generais e até do Presidente Figueiredo (João Batista de Figueiredo, último presidente da Ditadura Militar, finda em 1985), que babava com suas moquecas, ele só tinha dois dentes (razão do apelido Ratinho) e andava sempre de chinelo, bermuda e camisa aberta, ostentando no peito coberto de tatuagens místicas um grosso cordão de ouro trançado, peça rara e valiosa, herdada, dizia, da famosa cafetina Maria Tomba-Homem.
Pois certa noite de verão, num botequim da Ilha do Príncipe, Waldir participou de um jogo de ronda com Pedro Bucha, conhecido arruaceiro do cais do porto e Nego Chita, um peixeiro sorridente e beiçudo.
No meio da partida, Waldir ficou duro e fez a besteira de apostar o cordão de ouro. Nego Chita ganhou. Ganhou e levou pra casa. Mas por pouco tempo. Dois dias depois encontraram seu corpo estendido num beco da Vila Rubim, despojado do sorriso e do cordão.
Os malandros de Vitória e Vila Velha ficaram todos ouriçados, achando que o crime tinha sido praticado por Waldir e o clima ficou pesado quando ele apareceu no velóriode Nego Chita. Lá pelas tantas, a cachaça correndo solta, Pedro Bucha esticou um dedão acusador na direção de Waldir:
– foi ocê, baiano excomungado. Foi ocê quem desencarnou o compadre Chita pra ter o cordão de volta.
Seguiu-se um minuto de silêncio, tão absoluto que ninguém parecia sequer respirar, da viúva ao defunto, esse por motivos óbvios. Waldir pesou a situação, cuspiu de lado, esticou um rabo de olho pro céu e falou mansamente:
– meu santo é testemunha da minha inocência, mas pra ti, fiédamãe, eu vou provar na porrada.
Foi falando e transformando em berro o sussurro, em agilidade a vagareza, tirando a camisa e se pondo em guarda. Desafiado, só restou a Pedro Bucha encarar a parada. Só que, quando também tirou a camisa e já ia puxando uma faca, viu-se o cordão pendurado em seu pescoço.
Fora ele o assassino.
No final, o velório foi duplo. Justiçaram ali mesmo Pedro Bucha. E a lembrança daquela noite sangrenta corre até hoje nas quebradas da Ilha do Príncipe, emparelhada com a certeza de que a justiça foi feita pelas mãos da malandragem, mas conduzida pelo Caboclo Tranca-Rua, que não admite covardia contra seus afilhados.
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