Seg, 01 de Agosto de 2005 20:18   
O piripaque de Dona Valda

Nos anos 70, o cinema brasileiro foi acometido por uma epidemia de pornochanchadas, comédias eróticas hoje consideradas ingênuas e até meio ridículas, mas que lotavam os cinemas daquele tempo. Uma delas foi filmada na Praia da Costa, mais exatamente no antigo Hotel Hostess, que serviu de locação para a maioria das cenas. Intitulada “Quando as mulheres querem provas”, tinha um enredo bobinho, que nem vale a pena comentar e, como protagonistas, a belíssima atriz Rossana Ghessa, o boa pinta Carlos Mossy, que era uma espécie de Alexandre Frota da época e o humorista Pedro de Lara, conhecido em todo o Brasil como jurado do Programa Sílvio Santos. As filmagens duraram menos de duas semanas, tempo suficiente todavia para o elenco se enturmar com os malucos da cidade. E principalmente com as malucas, que partiram com tudo para cima dos artistas. Foi uma delas, a Lucinha, quem me contou a história, autorizando e até incentivando que eu a recontasse aqui na coluna. Atualmente, ela é a charmosa avó de três netinhos capetas, mas trinta e tantos anos atrás era uma das gatas mais cobiçadas de Vila Velha e, segundo suas próprias palavras, a rainha local dos porras-loucas.

Assim, nada mais natural que, ao se meter com o povo do filme, virasse também sua musa nativa, acabando agregada à equipe no papel de cicerone e namoradinha do Mossy. Claro que escondido da mãe. Lucinha era filha única, o xodó de Dona Valda, viúva simplória, nascida na roça, que nem sabia direito o que era cinema e muito menos que estavam filmando na Praia da Costa. Uma labirintite crônica a mantinha longe da rua, grudada à TV, sua única distração.

Certa madrugada, após o término das filmagens, aproveitando que Dona Valda fora passar uns dias em Vitória, com a irmã,  Lucinha levou o pessoal para traçar uma macarronada na sua casa. Como sempre acontece nesses casos, alguém providenciou umas bebidas e a farra comeu solta. De manhã cedinho, a surpresa. Um táxi pára lá fora  e dele desce Dona Valda resmungando impropérios contra a irmã. Mal abre a porta de casa, leva o maior susto de sua vida ao topar com um monte de desconhecidos dormindo espalhados pela sala, alguns de cueca, bem à vontade. Atônita, abre a porta do seu quarto, dando com Lucinha e Mossy estirados na cama. Nus. Sem acreditar no que vê, recua boquiaberta até à cozinha e encontra Pedro de Lara fazendo café. Uma tremura incontrolável bate em suas pernas e ela desfalece.

Acorda meia hora depois. No hospital. Lucinha está sentada ao seu lado, roendo as unhas, duplamente angustiada, com a saúde da mãe e com o esporro formidável que levará. Mas não. Dona Valda só faz segurar-lhe as mãos e desabafar em tom de tristeza: “Ô fia, mamãe tá perdendo o juízo. Credita que tive uma miragem? Cabei de vê uma porção de gente dormindo espaiado lá em casa, tudo de roupa de baixo. E o pior, ocê tava no meu quarto, pelada na cama com um homem. É vertigem, vertigem da labirintite. No começo inda pensei que não, mas quando vi o Pedro de Lara, do Sílvio Santos, coando café na minha cozinha, falei assim, tô louca, louquinha da silva! E cataprum, escureceu tudo!”

Dona Valda ainda viveu muitos anos, mas jamais soube a verdade. Lucinha não teve coragem de contar.

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