Sáb, 01 de Outubro de 2005 09:05   
Cara e Corôa

Nada existe no mundo com grau absoluto de pureza, sequer o Bem ou o Mal, pois em última instância, tudo depende do ponto de vista. O exemplo clássico é Joaquim Silvério dos Reis, o delator de Tiradentes. Nós, brasileiros, tratamos o sujeitinho como o mais infame dos traidores, mas para a Coroa Portuguesa ele foi um herói, uma espécie de agente secreto infiltrado numa conspiração subversiva. A história universal registra uma infinidade de casos semelhantes, só que para nós, eu e você, prezado leitor, o que interessa é capturar os retalhos anônimos do cotidiano, deixando aos poderosos o trato das grandes controvérsias.

Por falar em retalhos, passemos sem mais delongas (sempre quis escrever isso), à peixaria da Praia da Costa onde estava eu um dia, entalado entre duas gordas, aguardando o corte de um badejo. Apesar de conhecidas, aparentemente as gordas não se viam há tempos, pois, à custa dos meus ouvidos, aproveitavam para colocar em dia as passagens mais recentes das respectivas biografias. Eu acompanhava entediado a variada descrição de achaques e varizes, quando surgiu no meio da conversa um trecho de diálogo que exemplifica magistralmente a questão da dualidade de pontos de vista. Reproduzirei as palavras delas sem nenhum comentário. O leitor entenderá onde quero chegar.

GORDA 1 – Meus filhos? Ah, já casaram, todos dois. A Lívia deu sorte, fez um casamento excelente. O marido dela é um doce de pessoa e trata Livinha como princesa. Enche de presente o tempo todo. É carro do ano, não sei quantos cartões de crédito, restaurante de luxo toda hora e viagem pro exterior pelo menos uma vez por ano. Agora mesmo os dois estão passeando em Cancun. E ele não deixa ela levantar uma palha! Botou duas empregadas pra cuidar da casa. Casa não, palacete, até piscina tem. É imensa, tanto que, quando enviuvei, meu genro fez questão de me levar pra morar lá e me trata tão bem que daquela casa, minha amiga, só saio no dia de ir pro cemitério!

GORDA 2 – Que bom que a Lívia se arrumou. Mas tenho mais lembrança do Haroldo. Era um menino tão bonito...

GORDA 1 – Continua bonitão, só que ficou bobo. Casou com uma tipinha sem eira nem beira, uma ordinária que não lava nem o prato que come! O coitado se mata de trabalhar pra lambisgóia levar vida de madame, com carro do ano e carteira recheada de cartão de crédito, feito leque de piranha. Empregada a salafrária faz questão de ter duas, uma só não basta. E toma presente, restaurante de rico, viagens caríssimas pro exterior! Agora mesmo, não satisfeita com a piscina que obrigou o Haroldo a mandar fazer, foi, vê se tem cabimento, tomar solzinho em Aruba! Mas isso não é nada. Flagelo mesmo é a megera da mãe dela, que arranjou um jeito de ir morar com a filhinha querida. Tá lá, vivendo às custas do Haroldo e aquela ali, minha amiga, pra largar a mamata, só batendo as botas!

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