Sex, 01 de Abril de 2011 21:33   
Distresse

O labor sempre esteve relacionado com a virtude. Os escritos do grego Esopo, a dialética do romano Fedro e as fábulas de Jean de La Fontaine, todos eles exaltaram o trabalho como boa qualidade moral. Mente desocupada é oficina do diabo. O trabalho enobrece. Sem luta não existe ganho. Esses lugares comuns edificam a faina, valorizam o ofício, enaltecem a azáfama.

Todavia, jamais devemos nos esquecer de que o trabalho nasceu como uma maldição, um castigo. Após ter experimentado o fruto proibido, causando a ira divina, Adão caiu em desgraça e foi condenado a ganhar o pão com o suor do rosto.

Embora trabalhar seja bom, em determinadas situações suas conseqüências poderão ser nocivas.

Ninguém deve negar que o progresso trouxe melhorias para a existência das pessoas; entretanto, embutido nele veio o permanente e nefasto estresse. Frente a qualquer ameaça a sua integridade física ou emocional, o ser humano apresenta uma reação normal de adaptação denominada estresse. Trata-se de uma atitude de luta, fuga ou aceitação ao agente estressor.

Quando esses mecanismos falham, surge o denominado distresse. Situações persistentes que não conseguem ser resolvidas pelo enfrentamento, evasão ou adaptação, acabam provocando danos físicos e psíquicos. Interessante observar como pessoas diferentes reagem de formas diferentes, a um mesmo desestabilizador. O distresse continuado baixa a imunidade, aumenta a pressão arterial, desencadeia diabetes, abre úlceras duodenais, provoca colites, brota asma, produz enxaqueca, estimula fadiga, entre dezenas de outros sinais e sintomas. Toda essa carga de tensão persistente acaba queimando a energia do trabalhador. O modelo dessa atormentada vítima é aquele sujeito de ombros caídos, olhos distantes, respiração suspirosa e completamente apático; aguardando o cérebro explodir e o coração detonar. 

Existe uma fábula de La Fontaine, denominada A Cigarra e a Formiga. A história desse francês gira em torno da nobreza da formiga que trabalha durante o ano todo para que, no inverno, com a dispensa cheia, não passe fome. Quanto à leviana cigarra, leva a vida cantando e acaba morrendo a míngua.

Vendo políticos que ganham para não fazerem nada, cantores e apresentadores amplamente medíocres, enchendo-se de glórias na televisão, participantes de Big Brothers, valorizados por exibirem suas futilidades; poderíamos apresentar uma nova versão da fábula de La Fontaine:

Era uma vez uma bela e antiga história; agora bem nacional.

De uma pobre e coitada formiga, e de uma cigarra infernal.

Cantava a cigarra a toa. Nas tardes, sempre a mais linda.

Sua voz, até que era boa, mas o seu corpo, melhor ainda.

Enquanto a formiga “ralava”, tentando ganhar um nome, e quanto mais trabalhava, mas ia passando fome.

Enquanto a cigarra escondia, que não sabia “titica”.

Quanto menos ela trabalhava, mais ia ficando mais rica.

Enquanto a formiga achava, trabalho uma coisa nobre.

Quanto mais ela se matava, mais ia ficando pobre.

Até que a formiga, um dia, cansada de tanta labuta.

Gritou: Cadê aquela cigarra? Vem cá, sua filha da...!

Portanto, se você vir La fontaine, filosofando com tatu, diga-lhe então, bem solene, pra enfiar sua moral no...

 

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