Qua, 01 de Dezembro de 2010 13:45   
Animais, não desanimais

Quem passava pela sinuosa estrada de barro, localizada naquela pequena aldeia, situada no interior da Bahia, notava a placa mal pregada junto à janela do humilde barraco, onde se lia: “VENDE FRANGO-SE”. Naquela espelunca moravam a futura dona de Pitoco, seus pais, que estavam se separando, e seus irmãos. Nesse período, Pitoco ainda não havia nascido. Afinal, quem é esse tal de Pitoco?! Nosso personagem principal é um vira-lata, filho de Rejeitada, uma pulguenta cadela que, havia anos, morava com a família. Antes de todos mudarem para Vitória, Rejeitada tinha engravidado de Pitoco e aguardava a chegada dele e de seus irmãos. A futura dona de Pitoco tinha completado doze anos de idade quando, numa manhã, acordou com uma novidade bastante inusitada: Acabara de ficar menstruada pela primeira vez. Mal orientada pela mãe, não sabendo lidar com aquele desconhecido sangramento, a pequena menina desesperou: Mãe, eu estou batendo as botas! Acode-me, que eu vou morrer! Perdão por tudo que eu fiz com a senhora! Assustada com todo aquele fuzuê, a esquálida cadela acabou entrando em trabalho de parto e Pitoco veio ao mundo. Passados alguns dias, a família, tão dividida quanto aumentada, viajou para o Espírito Santo.

Embora morando dentro de um tonel de ferro, preso numa corrente e com uma ridícula tira de pano cor do arco-íris amarrando um sabugo de milho debaixo do seu pescoço, servindo de patuá pra espantar mau-olhado, Pitoco era feliz. Ele só não gostava quando alguém abaixava e fingia pegar uma pedra; aí o pretenso corajoso sabujo se desgraçava pra dentro do barril, fazendo um barulho dos diabos. Um tanto displicentes, os donos de Pitoco somente mais tarde foram notar que essa sensibilidade traduzia um pequeno detalhe: Pitoco era fêmea. No princípio foi difícil de acreditar, pois

Pitoco vivia dando em cima das cachorras do bairro. Foi aí que alguém lembrou que Pitoco também adorava assistir desfiles de GLS, latindo efusivamente para os participantes. Sem dar bola para preconceitos e estereótipos, ele nem ligou quando foi chamado de “sapatão”.

Pra comemorar a chegada da família no Estado, foi providenciado um churrasco. Depois de tentar fazer uma expressiva “vaquinha”, o montante de dinheiro arrecadado pra festa, se resumiu em dez reais, levantado com a venda de um caçuá usado pra carregar cacau e um berimbau, ambos pertencentes à dona de Pitoco. Além do litro de tubaína, que logo acabou; a quantia deu apenas pra comprar uma perna de lingüiça. Foram convidados alguns vizinhos. Enquanto a iguaria assava, o pagode corria solto no terreiro. Lá pelas tantas, mal serviram a desejada carne, começou a confusão: um puxava a lingüiça pra lá, outro puxava a lingüiça pra cá, descambando em pancadaria. Não demorou muito, a dita cuja foi parar no chão, ou melhor, na boca de Pitoco, que desembestou morro abaixo com aquele tesouro entre os dentes. Pobre é assim: “Quando Deus dá a farinha, o cachorro carrega o saco”. O pau comeu feio em cima de Pitoco; mas, incrivelmente, enquanto corria, conseguiu se desviar dos algozes, evitando o massacre. Um dia depois, os garis da prefeitura encontraram Pitoco deitado num matagal, com a barriga estufada e gemendo de dor. Pitoco tinha medo; ainda bem. Ele sempre soube a diferença entre medo e ansiedade. Tinha medo dos outros, mas não dele mesmo. Ansiedade é o medo de si próprio! Ao contrário dos outros animais, o ser humano carrega esse fardo. Não obstante, abundância de carne melindrou o estômago do coitado. Mesmo nessas dispépticas condições, ele achou melhor não arriscar voltar pra casa. Preocupado com uma possível nova comemoração da família, na falta da lingüiça, cachorro quente não seria para ele uma boa opção. Muitas vezes o melhor é o inimigo do bom...

 

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